domingo, 31 de dezembro de 2017

Viver, amar, grandes riscos


Arnaldo, um brilhante jornalista brasileiro enviou-me uma história forte. Um presente que levarei comigo nesse ano novo e por muitos anos.

Quando o rio se aproxima do mar ele tem medo. O mar é imenso, assustadoramente poderoso, o rio é pequeno, mas o rio não pode evitar o encontro.

Depois de ter vencido tantos desafios: emergiu da terra; atravessou montanhas; deu saltos espetaculares; contornou dificuldades; atirou-se sobre pedras, venceu a maioria das batalhas. Tudo isso para chegar ao mar.

Diante da imensidão oceânica, o rio terá que se atirar para um desconhecido onde desaparecerá.
Lentamente, enquanto percorre a planície, o rio percebe que no imenso oceano adiante ele não perecerá. Ao contrário, ele será mar salgado e poderoso. Ele fará parte de algo ainda maior que o rio. Ele está pronto. Ele se preparou para isso. É da vida do rio.

E mais tarde, como nuvens de chuva, ele retornará ao seco onde novamente correrá como rio ou ele descansará como água interior, sempre participando de grandes eventos e sempre trazendo vida abundante com ele.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Paixão pelo trabalho: quanto custa uma carreira?



Uma colega professora de Ciência da Computação com doutorado no MIT fez uma observação assustadora:

― Minha filha e o namorado dela nem pensam em casar. Eu tenho três filhos com mais de 25 anos e nenhum neto. Onde eles pensam que vão chegar se só pensam nas suas carreiras?

Boa pergunta. Ouvi, pois, a resposta dela. Eu queria aprender.

Veja o caso de Portugal, ele representa bem o Ocidente e o Japão.

1 Em 2015, havia apenas 1,23 filhos por portuguesa.

2 Hoje há em Portugal 10,3 milhões de habitantes.

3 Em 2040, quando minha filha tiver 50 anos, a população de Portugal será de 9,4 milhões de pessoas. Bem menor do que hoje.

4 Não é tudo. Quando minha filha tiver 50 anos, de cada 100 portugueses, 77 terão 51 anos ou mais. Serão 7,3 milhões de pessoas com mais de 50 anos e 2,1 milhões de portugueses com menos de 50 anos.

Quem vai recolher as contribuições que pagarão as pensões das pessoas que já não trabalham?

― O paradoxo, professor, é que minha filha e os amigos dela querem se dedicar ao trabalho para ter uma vida confortável. E ao fazê-lo estão sendo condenados a morar em asilos e cidades desertas.

Mostrei esses argumentos a um colega psicólogo. Ele discordou de tudo. Ele é um homem de fé inabalável nas ciências. Ele acredita que as ciências farão algum milagre: Brave new world!

sábado, 18 de novembro de 2017

“Se a vida não ficar mais fácil, trate de ficar mais forte” R’ Karaguilla (2017)


Aprendi com Joseph Campbell, o maior estudioso de Mitologia do século XX, que a tarefa do professor é falar, ensinar. O Mestre responde às nossas perguntas. Então perguntei ao meu mestre:

— Mestre, o que devo fortalecer para derrotar meus inimigos?

— Há pelo menos quatro coisas que precisarás fazer: fortalecer os músculos, o coração, o cérebro e a alma.

(Σ) Fortaleça o braço, pois precisarás de força para percorrer as sendas e contornar os obstáculos. Algumas vezes, infelizmente, também terás de bater mais do que apanharás.

(Ψ) A fortaleza do coração o poupará das emoções tóxicas, deletérias. Pergunte-se sempre: isso está me fazendo sofrer? Porque o SENHOR não te fez para o sofrimento, sim para o prazer.

(Λ) Um cérebro vale pela sabedoria que cultiva. Sábio é o homem que sabe o que fazer com os conhecimentos aprendidos na vida e nos estudos. Seja sábio e antecipe os ataques dos seus inimigos.

(ר) Nenhum projeto é realizável para o bem sem que estejas sintonizado com o ESPÍRITO do  BEM SUPREMO.

— Mestre, assim eu vencerei todos os meus inimigos?


— Não creio nisso. Mas certamente haverá mais ganhos que perdas. E no final terás onde repousar. Não te esqueças de agradecer aos Céus pela vida dos seus inimigos, pois teu inimigo te obriga a ser um homem reto.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Qual é seu talento? Ele vale o dinheiro que lhe fará rico!


― Professor, eu ainda não sei qual é a minha missão nessa vida.

Eis um grande desafio da vida, encontrar no viver um propósito. Este propósito é a missão. Os meios para realizar a missão são os talentos, palavra antiga que significa dinheiro e habilidades.

― O que são talentos? Perguntou-me aquele aluno de Cultura Organizacional.

― Talentos são todas as coisas que você faz com tanta facilidade que parecem fáceis. O talento é a luz que orienta a missão.

― Por que preciso saber quais meus talentos, professor? Contestou o estudante.

― Deixe-me contar uma parábola, talvez eu me faça entender.

Um homem rico voltava para casa na sua luxuosa carruagem. Era sexta-feira e ele ia celebrar o sábado. Muito perto de casa, o homem rico viu dois homens tentando tirar uma carroça de uma poça de lama. Pediu para o cocheiro parar, e foi ajudar.

Naquela sexta-feira o rico senhor ficou até a noite se esforçando para salvar a carroça e a carga, mas, por inexperiência, assustou os cavalos e toda a carga de alimentos caiu na lama.

O cocheiro foi ao serviço religioso e lá encontrou uma viúva com seus oito filhos que estavam com muita fome.

― Venham jantar em minha casa, disse o cocheiro.

Ao chegar à casa, o cocheiro descobriu que havia apenas quatro peixinhos com arroz e um pouco de batatas. Nessa noite as duas famílias ficaram com fome.

Se o cocheiro tivesse ajudado os homens da carroça e o seu rico senhor tivesse convidado a viúva e seus filhos para o jantar, cada um teria cumprido sua missão conforme os talentos deles. Cada um, segundo seus talentos, cada um deles brilharia conforme a própria luz.

Qual pessoa com um pouco de experiência deve ter visto isso: o chefe sem talento dirigindo um departamento estratégico tomar decisões temerárias e fracassar, pois o único talento dele é a bajulação.


Amar ao próximo é perdoar o próximo


Nenhum sacerdote ou pastor conseguiu dizer-me "O que é amar o próximo como a si mesmo?"

Eu fico, por isso, com  resposta de minha mulher. Amar o próximo é perdoar o próximo como a si mesmo, simples assim. Explico. Há leis morais que são difíceis de aceitar, destaco duas: 1ª. Não desejar a mulher do próximo, não desejar a casa do próximo, nem mesmo o jumento do próximo.

Um dia o poeta Vinícius de Morais perguntou:

Não posso desejar nem mesmo o jumento do próximo, SENHOR?

2ª. Amar ao próximo como a si mesmo.

Isso é loucura. Penso que ninguém ama mais alguém como a si mesmo. Qual o sinal de que o amor próprio é o maior amor do mundo? O perdão.

Quem pode cometer todos os pecados do mundo e ainda assim será perdoado? Eu mesmo. Eu sempre me perdoo, me justifico, racionalizo meus comportamentos perversos. 

Para Helane, com amor.

domingo, 12 de novembro de 2017

What do women want ? (Freud)


O promotor de justiça recebeu uma mulher decidida a se separar.

― Minha senhora, o que houve?

― Doutor, eu não aguento mais meu marido. Ele não me larga. Fica perto de mim todo tempo a agarrar-me, beijar-me. Meu marido é um grude, uma cola, uma sanguessuga.

O promotor ouviu a história e mandou chamar o marido apaixonado. E depois de relatar brevemente o que se passava, ouviu a versão dele.

― Doutor, minha mulher não sabe o que quer. Antigamente ela reclamava que eu lhe dava pouca atenção. Eu sempre a amei, então, ficar com ela é o que eu mais gosto. Agora ela reclama que eu sou muito apaixonado. O que faço se ela está sempre descontente?

― Saiba que sua mulher está para pedir o divórcio por causa do seu comportamento, comentou o promotor de justiça.

O homem riu e citou uma famosa frase atribuía a Freud em seu leito de morte:

― Fazer o que, doutor. Nem Freud soube responder a pergunta “what do women want?

sábado, 4 de novembro de 2017

Meu pai não sabe muito apenas porque é meu pai, mas porque é velho.


Eu estava no Congresso Nacional colhendo assinaturas de apoio para o orçamento do PET-Capes. Pedi a um deputado e ex-ministro da Fazenda do Brasil que assinasse a moção que eu trazia, mas ele estava absorto ouvindo um jovem deputado apresentar uma Teoria do Desenvolvimento absolutamente infantil. Ridícula!

Então, eu perguntei espantado ao economista e ex-secretário da Fazenda:

― Deputado, por que o senhor está se dando ao trabalho de ouvir isso? Isso é uma bobagem sem tamanho.

― É verdade. Tudo que ele diz está errado, mas a ignorância dá uma coragem...

Parece que é assim mesmo. As pessoas fazem coisas inacreditáveis por pura ignorância. Mas por que mesmo aquele PhD em Economia, professor, ex-secretário da Fazenda não pediu a palavra e não mandou o jovem deputado calar-se? Por que ele se deu ao trabalho de ouvi-lo?

Infelizmente o professor-deputado com quem conversei já morreu. Jamais saberei a respostas às minhas perguntas. Desconfio que ele fosse velho o suficiente para ter aprendido que não adiantaria nada ele corrigir o jovem e apressado deputado que proferia solenes disparates. Há coisas que só o tempo ensina. Uma delas é ouvir asneira e ficar calado.

Eu também aprendi isso. Um dia cheguei irritado com as bobagens que um colega estava a dizer e ouvi do meu pai uma reprimenda:

― Deixe seu colega falar, filho, pois quem profere as insensatezes geralmente está muito orgulhoso de si e pouco disposto a aprender.


Demorei muito a entender o que meu pai falou naquele dia. Meu pai não sabia muito apenas porque era meu pai, mas porque era velho.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Coração viciado e apaixonado


Ele tinha um “olhar viciado”. Nesse dia ele passou apressadamente para ver os pais. Comeu alguma coisa e pôs a sair.

― Tu já vais, filho? Fica para conversar. Que tal tomarmos uma cervejinha?

― Não posso papai, estou muito assoberbado de compromissos. Ficará para outro dia.

― Filho, diga-me uma coisa: Vais mesmo casar com aquela moça?

― Vou, papai. Está decidido. Desculpa, tenho que ir.

Foi a última conversa dos dois.

Anos depois ele foi vítima de “alienação parental”. A mulher com quem ele namorou era uma personagem que se desfez com o casamento.

― Professor, eu acho que meu pai queria me pedir para não casar. Eu não o quis ouvir. Melhor, eu não queria ver que aquela paixão era um erro.

Ontem disserram-me que ele se separou novamente. Estava as turras com a nova ex-mulher por causa dos filhos. Começou tudo de novo...

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Deixe essa mulher amar você

Meu primo Alberto estava com mais ou menos doze anos. Uma idade horrível. Jovem demais para namorar as colegas de classe.

― Papai, por que as meninas não olham para mim?

― Filho, eu acho que você está no caminho errado. Você se apaixonou por uma menina que está apaixonada por ela mesma. Essa menina não vai lhe dar atenção. Ela gosta mesmo é de se cuidar e parecer bonita.

Meu primo fechou a cara e saiu. Um tempo depois, voltou.

― O que eu faço?

― Filho, olhe para a menina que gosta de você.

― Papai, essa menina não existe.

O pai riu. Ele sabia que algumas coisas são difíceis de entender e aprender. Daí, pacientemente ele disse o que pensava.

― Filho, certamente há uma boa menina de olho em você. Mas você está obcecado demais por aquela Malagueña para procurar entre as meninas alguma moça interessante. Encontre essa menina. “Deixe essa mulher amar você”.

Uns 20 anos mais tarde, meu primo passou por um deserto com um divórcio horroroso, briga judicial, partilha de bens, discussão de pensão. Foi muito sofrimento, mas ele entendeu o que significa a frase “Deixe essa mulher amar você” e ele já está casado com ela.


sábado, 28 de outubro de 2017

O ódio é uma paixão


Filho, eu tenho muito medo de odiar. O ódio é uma criatura estranha com enorme capacidade de invadir o corpo humano.

O ódio tem garras longas capazes de se agarrarem à alma e ao coração. Como um vírus alienígena, ele se reproduz a partir de qualquer fragmento que circular pelo sangue do seu hospedeiro.

O ódio é um velho ranzinza, doente, chato, baixinho, feio, mal-humorado e alimenta-se da vida alheia. 

Diziam os nossos sábios que o ódio é uma mancha definitiva na alma. De tão pesado, ele vai para a cova do insurreto que o abriga.

― Mas o que há de bom em ser odiado, papai?

― Quase nada, filho. Apenas um fragmento da bondade ficou nele: ele é para sempre, nunca acaba. Quisera eu que o amor fosse assim...

― O que há de bom nisso, papai?

― Quem odeia, filho, nunca esquece o ser odiado, pois o ódio é uma paixão (latim passio, passoinis, .ação de suportar, .ação de sofrer), uma doença. A gratidão, ao contrario, faz bem a saúde de quem diz “agradeço”. Agradecer é uma bênção. Por tudo se deve agradecer, mesmo pelo não-sei-o-quê.

― Por tudo, papai?

― Por tudo, filho, pois faz bem. Agradecer desobstrui, poupa dinheiro, desemprega um analista, um médio e duas assistentes sociais.

― Duas assistentes sociais?

― Sim, filho, pois a gratidão é um bem dos homens abastados. Os pobres de espírito não são gratos, por definição.

Amor maternal não é sinônimo de amor de mãe.


Quando eu era bem jovem, descobri que no mundo animal não é raro uma mãe abandonar um filho.

O que para mim foi um surpresa fez meu pai rir.

― Meu filho, na propriedade de meus pais, em Soure, uma das tarefas das crianças era alimentar os borregos que foram rejeitados pelas mães ao nascer.

Pois é, nem todas as mães amam. Uau! Eu tive sorte. Minha mãe amava os filhos dela e o demonstrou com ações muitas vezes.

A pergunta, então, é: Pode-se aprender a amar?

Não sei. O que aprendi no meu trabalho de professor foi que o ensinado não é automaticamente aprendido, e isso não é em princípio bom ou ruim.

Aqui em Portugal, uma mãe que perdeu a guarda de três filhos por desídia foi condenada a fazer um “treino parental”. Se eu entendi, ensinarão aquela mulher a amar ou cuidar dos filhos (cf. JN 28/10/2017).

Mas ela aprenderá o que lhe será ensinado?

Eu prefiro acreditar que aquela mãe aprenderá com o “treino parental”. Mas haveria quem discordasse de mim.


O professor Urbano Rodríguez de saudosa memória gostava de repetir um antigo provérbio mulçumano que penso que era assim:

― "Se puede llevar un camello al pozo, pero no se puede obligar a beber".

[“Pode-se levar o camelo ao poço, mas não se lhe pode obrigar a beber”}. Ou seja, nem sempre se aprende o que foi ensinado.

Todavia, há mulheres capazes de amar o filho de uma fêmea de outra espécie. Fantático!

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Amar é ver cores onde elas não existem.


Esther tinha 12 anos quando, muito séria, perguntou:

― Vovó, o que é amar?

― Amar é ver cores onde elas não existem. Amar é olhar para aquela pessoa especial e vê-la colorida, enquanto o resto do mundo ficou preto e branco.


― ❤ Pensei que o nome disso fosse desmaio ou daltonismo, disse a mãe.

"Who hope get tired. Faça alguma coisa. Quem espera sempre cansa.


Foi terrível!

Durante quase duas noites frias, aquele jovem viu seu melhor amigo sofrer dentro de um buraco no deserto.

Febre. Dor. Sangue por todo lado. Choro. Tudo era insuportável.

Ardendo em febre, o amigo pedia que terminasse aquilo. Ele queria morrer.

Jon-Jon reuniu todas suas forças e matou o amigo com um canivete que havia ganho dele.

Passada algumas horas. A polícia encontrou Jon-Jon chorando sobre o cadáver do amigo.

O que Jon-Jon não sabia era que a estrada estava a dez minutos dali.

Desesperado, Jon-Jon apenas repetia:

― "Who hope get tired. [Quem espera sempre cansa.]

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Não chores por ele ― Do not cry for him.


Muitas vezes na minha vida vivi a experiência de ser ridículo.

Um dia, perguntei a uma colega:

― Quando seu bebê nascerá?

Ela não estava prenhe. A gorda tinha uma bela barriga. Foi horrível. Fiz de tudo para não mais encontrá-la.

Noutra vez, vi minha professora de língua inglesa cabisbaixa, com uma face triste e algum soluço. Haviam me dito que o relacionamento dela havia terminado há pouco tempo.

Era uma cena estranha. Aquela irlandesa parecia viver apenas para o trabalho e a carreira. Vê-la chorar era inusitado.

Eu e outros homens igualmente idiotas frequentemente nos comovemos com o choro feminino. E para consolá-la, disse-lhe:

“Don’t cry for him! You have your career”.

Eu fui novamente ridículo. Na verdade, ela havia sido demitida. 

Qual a diferença entre um encontro e amor, vovó?

Alicinha, minha prima querida tinha apena 11 anos quando perguntou a avó:

― Qual a diferença entre um encontro e amor, vovó?

― Querida, quando um jovem rico e bonito convida uma mulher para jantar. Leva essa moça ao melhor restaurante da cidade a bordo de uma belo carro. Abre uma garrafa de chamagne Moët & Chandon. Pede a melhor comida da casa. Depois, leva a moça a um local requintado onde o casal passa uma noite louca. E antes de adormecer, dá-lhe de presente uma pulseira de ouro e brilhantes. Isso é um encontro, querida.

― E o amor, vovó?


― Amor é bobagem que o pobre inventou para dormir com uma mulher.


sábado, 21 de outubro de 2017

Para Eva, o que é amor? E para Adam Juergen? ― "Freund, das ist Liebe".



Eva nasceu numa família de sírios que viviam no Norte do Brasil. Na Áustria, quando fazia doutorado, conheceu Adam Juergen, um alemão com quem foi casada por mais de 10 anos.

Infelizmente, eles tinham uma dificuldade intransponível: o sonho de Juergen era casar-se com uma mulher que ele amasse (Isso ele conseguiu!) e que ela o amasse também, este foi o problema.

Eu achava que Eva amava Juergen. Eu, aliás, não tinha dúvidas desse amor. Ele tinha muitas dúvidas. Então, encharcados de cerveja, um dia conversamos sobre esse amor.

― Juergen, Eva te ama. Você sabia?

― Não ama. Ela nunca me disse “eu te amo” sem que eu insistisse.

― Juergen, Eva é minha amiga desse os 4 anos de idade. Para ela, amor é compromisso e não um sentimento.

― Para mim amor é sinônimo de paixão. Amar faz ferver o sangue. Você não entende isso porque é racional demais [um chato].

― Juergen, para Eva amar é cuidar, é estar perto, é estar disposta, entende-me?

― Eu aprendi português lendo uma tradução do Os Sofrimentos do Jovem Werther, aquilo é amor!

― Juergen, aquilo é paixão impossível, é obsessão. Eva aprendeu a língua alemã circulando nas ruas Viena, conversando contigo. Amor, para ela é fazer companhia, andar juntos por aí. "Freund, das ist Liebe".

― Não concordo consigo.

― Juergen, entenda uma coisa: sua mulher Eva não entende essas suas fantasias românticas. Para ela o amor é uma experiência venusiana . Para ti, meu amigo querido, é um sentimento marciano. 


Ainda hoje lembro muito bem dessa conversa. Lembro que Eva usava uma sapatilha cor-de-rosa ridícula. Adam Juergen, sentado a minha frente usava um agasalho quadriculado de flanela, estava frio. Foi a última vez que os vi juntos. Que pena...

[Para meu amigo Ronaldo.]

domingo, 15 de outubro de 2017

Ela rezava, mas não acreditava em D-us.


Um dia uma professora doutora chegou à minha sala precisando falar. Às vezes as pessoas somente querem falar e/ou sentir que a voz delas repercute, sensibilizam.

Nesse dia, minha sala ouviu uma história linda!

A doutora me contou que não acreditava em D-us, entretanto, disse-me:

― “Eu rezo com meus filhos todas as noites”.

Não há muita razão para uma pessoa, seja homem ou mulher, que tem juventude, beleza, dinheiro e saúde acredite em D-us. Parece que ter sorte de ter o que tem é o suficiente.

Note, eu falei TEM juventude, pois a juventude passa. TEM beleza, essa passa ainda mais rápida. TEM dinheiro, isso é uma ilusão. Pode-se perdê-lo em minutos! TEM saúde. Ora, ter saúde é condição “sine qua” para morrer ou adoecer.

― O que há de bonito nessa história?

A doutora sentada a minha frente não sabia a diferença entre ter uma experiência com D-us e, portanto, confiança e ter fé. Fé é diferente de confiança.

―A fé diz: Eu acredito no amor.

― A confiança diz: “Eu já vivi uma experiência amorosa. O amor existe”.

OU

― Eu já senti a presença de d’Ele na minha vida. D-us existe.


Isso não é fé. Isso é confiança. Mesmo assim devo dizer, obrigado professora, por orar com seus filhos.

sábado, 14 de outubro de 2017

O tolo e o dinheiro são desafetos, logo se separam.

No grupo de trabalho havia 12 pessoas, todas do mesmo bom nível. Todos recebiam os mesmos rendimentos.

Passados três anos, surpresas:

  •  Oito deles haviam consumido todo o dinheiro que ganharam com bens não duráveis. Não tinha dinheiro nem deviam muito.
  • Dois haviam construído suas casas com o dinheiro ganho durante aqueles três anos.
  • Um estava completamente endividado, tão endividado que se tornou "depositário infiel".

― Por que um deles ficou endividado?

Ele era o mais inteligente, bem humorado, trabalhador. Tinha muita sorte. Ganhou nesse tempo um bom dinheiro num sorteio.

Honestamente, não sei por que ficou endividado. Acho que ganhava com inteligência e gestava como um tolo.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Quem é o culpado pelo fracasso duma empresa? O "big boss", claro


Em qualquer empresa os donos não as pessoas que mais ameaçam a sobrevivência de um negócio. 

Infelizmente não amamos ninguém como amamos a nós mesmos e, facilmente, apontamos um culpado e nos perdoamos.

Um homem de negócio planejou uma aposentadoria tranquila. Ele construiu duas dúzias de lojas num corredor comercial importante da cidade em que morava.

Os aluguéis (arrendamentos) lhe davam 30 mil euros de renda mensal ou uma vida confortável em qualquer cidade do mundo.

Certo dia, ele resolveu fazer um contrato arriscado e ambicioso e entregou o terreno onde estavam as lojas nessa operação comercial. Perdeu tudo no negócio. Ficou apenas com a casa onde habitava.

Poderia ficar pior e ficou. Sem dinheiro, não conseguiu pagar a pensão que devia a ex-mulher que, de imediato, pediu a prisão dele por dívida de pensão alimentícia.

Conheci-o preso, pobre, desesperado e, por ambição, causador primário da própria desgraça. Entretanto ele dizia que o culpado era o outro. Ele não aprendeu a lição:

― Quem é o culpado pelo fracasso duma empresa?

― O dono da empresa.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Não consigo imaginar a Rainha Elizabeth II correndo.




Há condutas que revelam a origem das pessoas e das coisa, uma delas é o gosto. 

Não consigo imaginar um nobre correndo feito um louco sobre sapatos altos. Isso é coisa de plebeu. Plebeus precisam correr. Eles são presas. Presas precisam correr para sobreviver.

Um nobre correndo? Só em situações de fuga ou doença. Correr é abreviar a vida. Se a vida é boa, por que eu teria pressa? Para morrer?

― A princesa Diana estava correndo no dia da morte dela, dirias tu.

Verdade. Pobre e infeliz plebeia alçada à condição de princesa, amada pelo povo, mas pelo marido parece que não. Princesa bibelô, enfeite que se coloca sobre a mesa. Quando a felicidade parecia possível, ela morreu.

Convenhamos, quem estava correndo era o motorista do namorado de Lady Di, um plebeu. Não era a princesa. Resultado da pressa: a princesa Diana foi se encontrar com outro homem, Jesus.

Se a vida é boa, por que correr como um plebeu?


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Seja feliz agora, se a separação te fará feliz, seja feliz!


Uma experiência crítica, do ponto de vista científico, é aquela que não deixa dúvidas. Mas na vida comum também temos experiências críticas.

Num caso que acompanhei de separação complicada houve um evento crítico. Depois de dois anos adiando a separação, meu amigo chegou na praia com um dos filhos e contou-me que naquela manhã havia decidido se separar.

― Tem certeza?

― Tenho, eu vou me separar.

― O que aconteceu camarada?

― Hoje pela manhã eu e a mulher brigamos novamente. Ela me disse: “Se você for homem, se separe de mim. Vá embora. Pague-me uma pensão”.

― Sim, mas ela é passional e já teve outras reações assim. O que mudou?

― Foi uma situação crítica. Ela não deixou espaço para a dúvida. O que você faria se lhe dissessem para ir embora? Perguntou-me.

Fiquei calado, mas eu iria embora. Há limites até para a insanidade.

As pessoas somem, é um fato.

― Por que as pessoas somem?

― Não sei. Não me perguntem mais por que razões as pessoas somem. Apenas sei dizer que somem. Há dois modos de pensar nisso: a descrição e a explicação. E um único modo de não sofrer muito, aceitar que quase nunca sabemos os porquês. Sabemos que somem, é só.

Quando meu primo era miúdo, ele tinha um colega no segundo ano da escola, o Beto, de quem não ele deveria gostar, mas gostava muito. Meu primo era estudioso, Beto também. Gostavam das mesmas coisas. Estudavam na mesma sala. Tinham a mesma professora. Conduto, Beto era filho dum general e político poderoso e, o mais importante, ele era o protegido da professora.

― Não deveria gostar? O que isso significa?

Explico. Em todas as avaliações, as notas de Beto eram mais altas que as de meu primo, mesmo que fosse só um pouquinho. Nada que meu primo fizesse agradava tanto a professora quanto os trabalhos de Beto. Meu primo chegou a se queixar com meu tio. Piorou. Meu tio brigou com a professora, uma mulher muito rancorosa.

Mesmo assim, aqueles dois meninos e um certo Emanuel, eram grades amigos. E o foram por muito tempo, dos 7 anos aos 9, até que Beto sumiu.

Quando meu primo estava terminando Engenharia Aeronáutica, em São José dos Campos, no Brasil, acho que terminando o mestrado, não tenho certeza, ele encontrou novamente o Beto, por acaso. Reconheceu-o pelo dente incisivo quebrado. Ele se lembrou do dia que o dente quebrou.

Nesse tempo, Beto era gerente de um órgão público em Recife. Foi um encontro estranho. Eles não se viam desde que tinham 10 anos de idade. Eram, então, homens feitos que foram amigos na infância, mas agora, o que eram?

Nesse encontro casual, eles conversaram um pouco. Cada um deles achava que o outro não o havia reconhecido. Logo depois, meu primo foi trabalhar num fábrica de helicópteros, na França.
Um dia, recebi uma ligação de meu primo. Ele estava morando no Rio de Janeiro e fazendo 70 anos. Feliz, meu primo queria reunir a família.


As festas de meu primo eram ótimas, dizia-se. Ele era músico e conhecia toda gente da música do Rio de Janeiro. Mas não pude ir à festa. Desde, então, não vi mais meu primo. Hoje, eu vivo em Portugal.

domingo, 24 de setembro de 2017

Há pessoas que só compreendem apanhando, e não sabem disso.

Uma mulher chegou ao banco com uma pilha de cheques para depositar às 16:01. O banco já estava fechado. Ela pediu ao segurança do banco que abrisse a porta, ele se negou.

― Eu não posso senhora. Eu recebo ordens. O banco fecha às 16:00.

― Chame o gerente!

O gerente veio e pacientemente explicou a correntista que não poderia fazer nada, pois o sistema já fecha automaticamente às 16:00 horas. Disse o que ela poderia fazer para não ter muitas perdas, mas voltasse no dia seguinte.

― Eu quero falar com a diretora. Chame a diretora. Agora!

A diretora veio. Ela era uma mulher enorme e bruta como poucos. Os funcionários sabiam disso. A correntista contrariada desfilou todas as reclamações e xingamentos, ali mesmo na frente do banco. 

No meio da conversa, tomou uma tapa da diretora do banco e, zonza, ouviu uma ordem:

― Volte amanhã!

A diretora voltou para o balcão e as contas  voaram por todo lado. O vento levou alguns cheques. Então, o gerente se aproximou e gentilmente disse:

― Senhora, eu lhe disse o que fazer. Por que a senhora não me ouviu?


― Eu ouvi sua falação, gerente, mas a diretora me explicou tudinho.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Ter amigo é ter vida


Jó perdeu quase tudo, mas manteve os amigos.

A história de Jó (ou Job) descreve o sofrimento de um homem que perdeu quase tudo, menos os amigos. Estranho!

Por que Jó não perdeu os amigos?

Por que perder os amigos é morrer. Não há vida sem amigos e aí está uma coisa para pensar. 

A escola pode contribuir para que as pessoas sejam amigas, acho que sim. E deve fazê-lo, pois as taxas de sofrimento intenso são sinalizadas pelo suicídio em Portugal. Vive-se uma época de sofrimento crescente.

Conta-se que os primeiros dias de aula do poeta Charles Baudelaire foram sofridos. No primeiro dia o pai de Baudelaire ficou ao pé da porta da escola esperando que o filho se acomodasse em sala, mas isso não era simples para Baudelaire.

Um pouco depois de começar a aula, o pequeno e brilhante Charles, com 7 anos, volta chorando para o pai, abraça-o e diz:

― “Papa, je ne suis pas comme les autres”.

Ele não era como os outros, claro. Ele era Baudelaire.

A escola deveria ser um lugar bem chato para Baudelaire que viveu da palavra. Imagine-se um lugar onde as crianças não podiam conversar na hora do almoço. Que chato! Criança não é cabrito que come calado e vai embora. Criança fala.

Por essa dor, o poeta Carlos Drummond de Andrade não passou. Na escola dele as crianças conversavam na hora do almoço. A escola permitia. Falando se faz amigos. Ter amigo é ter vida! Jó, o paradigma do sofrimento, perdeu quase tudo, mas manteve os amigos.

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Carlos Drummond de Andrade teve um final de vida muito sofrido. Ele enterrou a própria filha que morreu precocemente. Esse sofrimento o marcou profundamente. Ele era pai.

domingo, 17 de setembro de 2017

Do not miss this opportunity!


Há pessoas boicotam a elas mesmas? Há pessoas que deixam todas as oportunidades passar por toda a vida? Parece que sim.

Diz-se que nas enchentes causadas pelo furação Katrina em Luisiana em 2005, um homem ficou no teto de uma casa alagada. Passou um barco e dele alguém gritou:

― Vamos Ted, a chuva vai piorar.

― Podem ir, D-us cuida de mim!

Depois de alguns minutos, uma lancha apareceu e de lá alguém chamou:

― Vamos senhor, a chuva vai piorar. Não perca essa oportunidade (Do not miss this opportunity!)

― Podem ir, D-us cuida de mim, respondeu novamente.

Passado alguns minutos, a tempestade havia arrefecido um pouco, um helicóptero se aproximou e jogou uma rede de salvamento. Ted fez sinal de negativo e berrou:

― Podem ir, D-us cuida de mim!

A chuva piorou e Ted morreu levado pela pior tempestade tropical dos últimos 30 anos.

Quando Ted chegou ao céu ele era um homem contrariado. Foi direto ao trono do Eterno e meio desesperado argumentou:

― Senhor, eu esperei por Ti e não me socorreste.


T e d,  e u   s o c o r r i. Mandei um barco pequeno e você não quis ser resgatado. Mandei uma lancha e você não quis. Correndo muito risco, enviei um helicóptero e você não aceitou o socorro. Você perdeu todas as oportunidades que te dei Ted e queres me culpar. Ted, você se boicotou.

sábado, 16 de setembro de 2017

Ele corre porque deve muito


Luzinom estava devendo muito. Naquele tempo, a riqueza estava concentrada na mão dos nobres. Pois um dia o Duque, dono de todo o condado, resolveu ajudá-lo.

― Luzinom, eu vou lhe ajudar. Toda terra que você percorrer até o por do Sol de hoje será sua.

Luzinom começou a correr. Correu. Correu. Depois de meia hora, ele já estava rico, mas continuou a correr. Então, passou por um grupo de camponeses que estavam limpando um prado.

― Luzinom, vem nos ajudar. Somos 9 homens, precisamos de mais um só.

― Não posso. Estou com pressa! Gritou.

Mais adiante, um grupo estava almoçando.

― Luzinom, vem almoçar conosco. Nós fizemos um cordeiro!

― Não posso, estou com pressa! E correu.

Adiante passou por um grupo que se preparava para tirar uma vaca de uma poça de lama. A vaca estava morrendo e faria muita falta a um camponês pobre.

― Luzinom, vem ajudar. Precisamos tirar essa vaca do atoleiro!

― Não posso! Estou com pressa!

Quando o Sol se punha sobre a copa das árvores do pomar, ele chegou exausto ao castelo. De tão estafado, caiu aos pés do Duque e ali mesmo morreu. O Duque mandou encomendar a alma de Luzinom e o enterrou num lote de 1 metro por 3 metros. Sobre a cova funda pos uma lápide que dizia:


“Aqui jaz um homem que correia porque deve muito

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Quando eu crescer eu quero ser migrante

[Para a professora Luana]


Há três fatores que justificam a migração. Fator é um conjunto de justificativas (variáveis) que estão fortemente relacionadas entre elas. Variáveis, nesse caso, são as razões para migrar. A atração é o primeiro fator ou conjunto de razões para migrar.

Na década de 1970, muitos brasileiros que viviam no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, venderam suas casas e propriedades rurais e se mudaram para Mato Grosso e Rondônia.

— Qual eram as atrações?

Objetivamente eram terras boas e baratas; incentivos governamentais; qualidade do ambiente; taxas de retorno do agronegócio; taxa de juros.

— E os fatores de expulsão?

Na década de 1880, Japão tinha uma superpopulação sem emprego, sem terra, endividada, sem esperança e vivendo em más condições ambientais. A vida no Japão era muito dura. 

O governo japonês fez acordo com outros países com objetivo de lhes enviar migrantes. O Brasil fez parte desses acordos, assim como a Coreia e os Estados Unidos e recebeu muitos japoneses.

— O terceiro fator é afetivo.

A migração é justificada por sentimentos. Por exemplo, admira-se a cultura de outro país. Muitos dos migrantes que saíram do Brasil para Israel tinham motivações afetivas. Muitos não são religiosos, mas fizeram “aliá”. Esse Esse terceiro fator parece que se chama esperança.

— O direito de migrar.


Eu disse que havia três fatores que justificavam a migração, mas hoje há um quarto fator, sobre o qual se teorizou pouco: o direito de migrar. Esse “D'Artagnan” ou quarto mosqueteiro é o Direito de Migrar. Não importam as razões, nós temos o direito de migrar, de procurar uma vida melhor. Aliás, temos obrigação de ser felizes.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Bem vindo ao mundo dos adultos



[Para Nini]

A vida não porto seguro, mas os que lutam podem vencer a guerra.

Na universidade, a sala de aula é para quem precisa estudar. O laboratório é o sítio de quem gostam de estudar. 

Aprendi isso com meus melhores alunos. Nini era uma dessas personagens. Ela tinha grande talento para servir e liderar.

Uma vez levei o Reitor da minha universidade ao meu laboratório. Como o laboratório fica noutro campus universitário a 203 quilômetros da reitoria, nos atrasamos.

— Magnífico, se chegarmos muito atrasados à reunião do laboratório, os alunos tomarão as decisões que cabe a eles e vão para casa, pois eles não costumam atrasar, disse eu ao Reitor.

O reitor sorriu com o canto da boca, incrédulo.

Quando cheguei ao laboratório havia um bilhete para mim: professor, infelizmente o senhor está atrasado. Nós fizemos a reunião, estudamos o texto. Volto mais tarde.

Entreguei o bilhete ao Reitor e devolvi o sorriso com certo orgulho.

À noite, antes da reunião administrativa com a reitoria, Nini voltou ao laboratório chorando muito. Esperei que ela se acalmasse. Por fim perguntei:

— O que houve amiga?

— Uma aluna daqui com quem nunca eu falei está envolvendo meu nome numa discórdia. Ela fala mal de mim para toda gente. Eu nem sabia o nome dela, professor.


Eu não resisti e fiz uma observação talvez dura demais. Disse-lhe:


— Bem vinda ao mundo dos adultos, Nini.

sábado, 2 de setembro de 2017

Por que me odeias se eu nunca te amei?


Meu amigo Telmo é uma das mentes mais brilhantes que conheci, seja como músico ou como psicólogo. Eu sempre lhe fiz pedidos absurdos: Telmo, você pode tocar Espinha de Bacalhau no saxofone? 

Ou perguntas de respostas impossíveis: por que o aluno de quem mais cuidei para que ele fizesse sucesso me odeia? Ele olhou para mim e riu. Eu senti o quanto tenho que aprender.

Na década de 1980 eu era professor num departamento de licenciatura onde estudavam os alunos mais pobres da universidade. Dentre eles, um se destacava pelo brilho.

Meu Brilhante Aluno era feliz e triste. Imagino que a força e disciplina faziam dele um homem feliz, mas as dificuldades da vida na época de estudante de licenciatura impunham suas dores.

Um dos sinais de dificuldade eram as sandálias que ele usava em sala de aula, de tão gasta não tinha mais o calcanhar.

No meu aniversário daquele ano meu pai me deu um belo chinelo que estava na moda e era bem caro. Experimentei-o. Gostei, mas não seria meu.

Após a aula da manhã do dia seguinte, eu encontrei meu brilhante aluno. Ele continuava a usar a sandália comida no calcanhar, algo difícil de imaginar. 

Chamei-o de lado e disse-lhe:

— Amigo, vamos ali comigo?

Quando cheguei ao carro, abri o maleiro e dei-lhe a caixa com os chinelos. Disse que eu comprei, mas meu pai me deu outra.

— Não preciso de dois chinelos. Se você os quiser, são seus.

Ele calçou feliz. Era perfeito. Ele tinha a minha altura. Hoje meu ex-aluno é um Professor Doutor Brilhante, mas ele não fala comigo há anos. Por que, amigo?

— Talvez ele tenha vergonha. Talvez ele se defenda odiando. 

Telmo disse-me aquilo rindo. Ainda hoje não sei se ele estava de fato me respondendo ou rindo de minha ignorância. 

O meu consolo foi ouvir Telmo Valença tocar Espinha de Bacalhau no saxofone. Que maravilha!







quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Onde almoçar bem em Lisboa?

Era meio-dia e meia. Frequentemente almoçamos nesse horário em minha casa. Dia 29 de agosto de 2017 não seria diferente.

Eu e minha família paramos num restaurante em Lisboa, na zona do Parque das Nações. Não o conhecia, mas tinha boa aparência. Olhamos a ementa (cardápio). Pareceu muito interessante.

Procurei uma mesa mais próxima possível do balcão de atendimento com a intenção de facilitar o atendimento. Sentamos. Nós estávamos com muita saudade da boa comida lisboeta, do cheiro agridoce dos temperos tradicionais.

Havia dois garçons ― uma mulher e um homem ― e outra pessoa, talvez um gerente. Esperei que algum dos três funcionários olhasse para nós, afinal éramos seis. Não olharam. Fiz um sinal sonoro discreto. Não adiantou. Os garçons estavam preparando outras mesas para receber os clientes. Precisamente, eles colocavam toalhas de papel sobre as mesas.

Depois de muito tempo, pelo menos uns 5 minutos, eu desisti e chamei meu povo. Fomos almoçar num boteco que já conhecíamos. Mineiro de Belo Horizonte gosta de comida-de-boteco  .



Logo que chegamos ao boteco tão querido, o lugar já estava lotado. O dono na caixa fez um breve comprimento. A mulher dele sorriu e pediu que esperássemos. Fomos atendidos logo. Não demorou mais que 5 minutos para ela tirar o pedido.

Almoçamos muito bem e, principalmente, fomos muito bem atendidos.

Agora me pergunto: Se uma pessoa gosta mais de arrumar o salão do restaurante que atender aos clientes desse mesmo restaurante, por que não foi ser o zelador? Não se pode servir a dois deuses ciumentos ao mesmo tempo.


Na verdade, eu entendo tudo isso. Quando uma empresa vai à falência principalmente porque não dá atenção ao cliente, porque seus funcionários não gostam de clientes, nem de vender, o dono sempre pode racionalizar e culpar alguém ou alguma coisa pelo fracasso. Depois e dormir endividado, mas livre de culpa e pecados do próprio fracasso.

domingo, 20 de agosto de 2017

O Golpe do Menino(a) Triste


O Golpe do menino funciona assim:

Passo 1. A invenção da tristeza. O rapaz inventa que está sofrendo por alguma razão (doença, perdas, frustrações);

Passo 2. A abordagem triste. Ele se aproxima da vítima, por exemplo, uma mulher com quem ele quer dormir e conta a história triste dele. Sensibiliza a ouvinte. Fá-la sentir dó dele;

Passo 3. O golpe. Em seguida ele pede o que quer (dinheiro, sexo, atenção, afeto).

Funciona melhor que o Golpe do tapete angolano.

Conheci um especialista. Ele aplicou esse golpe durante vida toda, mesmo quando era um senhorzinho. A versão predileta dele era a tristeza ou a dor. Sofreu de tudo: transtorno de ansiedade, pânico, depressão, hipertensão arterial, cefaleia, gastrite, cálculo renal.


Por ultimo, convenceu a todos que estava com câncer (cancro). Até o oncologista acreditou nas queixas dele e iniciou um tratamento. Em virtude de uso abusivo de medicamento, ele morreu. Morreu feliz repetindo o bordão: “Agora vocês acreditam?”

sábado, 5 de agosto de 2017

Quem ama beija.




Como era o amor há 80 anos? Há 100 anos?

Dona Jupira e Seu Chiquinho, um casal lindo que vivia no isolado Vale da Babilônia, bem que poderiam responder. Mas a pergunta não lhes foi feita. Pelo menos não assim.

O jornalista queria apenas saber como as pessoas viviam num dos sítios mais isolados das Minas Gerais, sudeste do Brasil. E começou a gravar cedo, no curral, vendo Seu Chiquinho ordenhar.

Ordenha é trabalho duro. Exige vigor, paciência, habilidade, força e, nesse caso, capacidade de suportar o frio da Serra da Canastra.

― Dona Jupira ajuda o senhor, Seu Chiquinho? 

― Ajuda, ajuda sim senhor..

― O que Dona Jupira faz?

― Ela solta o bezerro.

Depois, na cozinha, fogo da casa, Dona Jupira começa a assar uns pães-de-queijo. Encantado com o sabor, o cheiro, a textura da iguaria, o jornalista pergunta:

― Seu Chiquinho, que tal montarmos um negócio para vender pão-de-queijo em São Paulo? Ganharíamos bastante dinheiro. Esse pão é divino.

Seu Chiquinho não respondeu. Não carecia.

― Dona Jupira, Seu Chiquinho lhe ajuda a preparar os pães-de-queijo?

― Ajuda.

E a câmera fecha nas mãos calejadas de Seu Chiquinho fazendo bolinhas com a massa do pão-de-queijo.

― Como foi que o senhor conheceu Dona Jupira?

― Nossos pais eram amigos. Quando eles saiam para caçar, eu ficava tomando conta dela.

― O namoro naquele tempo era diferente, não era Seu Chiquinho? Era só olhares. Mãos dadas...

Nesse instante o olhar de Dona Jupira atravessou a conversa: Mão na mão? Que ridículo! Será que esse senhor nunca amou?


segunda-feira, 31 de julho de 2017

O Sacerdote

[Ao meu mestre Celiomar Lima, homem justo e bom.]



Numa cidade do interior gelado da Argentina havia dois padres: um deles era um homem piedoso, cumpridor dos deveres religiosos e civis, justo, reservado; o outro era impiedoso, tinha uma namorada, bebia muito, frequentava lugares impróprios.

Ambos já idosos, eis que morreu o padre impiedoso. Morreu devagarinho depois de passar um tempo na casa de uma sobrinha que vivia na capital. No dia do enterro, a cidade parou. A prefeitura decretou feriado. As escolas fecharam. Os sinos dobraram.

Muita gente foi ao enterro. O cemitério esteve lotado. Foi um dia de estórias e tristezas. Mas também foi uma festa. Toda gente da região veio assistir ao ofício religioso e acompanhar o esquife até a cova. Gente chorou. Gente orou.

Algum tempo depois, morreu o padre piedoso e justo. Fizeram-lhe uma missa apressada. Enterraram-no na companhia de 6 a 8 pessoas, incluindo o coveiro, claro. Não foi feriado. Não houve cortejo. Não se soube que alguém chorou. Pareceu que uma folha caiu duma árvore.

Hoje, já passado tanto tempo, eu pergunto:

— Por que o mal parece tão encantador?


— Por que não gostamos de fato do bem? Embora o digamos...

— Quem sabe o nome do chanceler alemão que sucedeu a Hitler?


domingo, 30 de julho de 2017

O Mestre


O professor Joseph Campbell contou, em 1987, a seguinte história.

Numa certa tribo americana havia uma jovem índia muito bonita que desdenhava de todos os guerreiros que a cortejavam. Nenhum deles era bom o suficiente para ela. A todos evitava.

Um dia, ela sai para recolher lenha seca com a mãe dela numa mata próxima. De repente, começou uma tempestade. As duas, então, abrigaram-se numa caverna e ascenderam uma fogueira, pois o lugar era escuro e frio.

Quando a chuva passou, um guerreiro alto e forte apareceu na entrada da caverna. A jovem índia ficou encantada com ele. Não demorou até que o guerreiro pediu a bela índia em casamento.
Casaram-se e foram morar no novo território.

Na nova tenda, passaram juntas três noites seguidas. Quando a comida acabou, o guerreiro disse à mulher que ia caçar.

No final da tarde, uma cobra imensa entrou na tenda e foi até a índia. Passado o susto, ela começou a acariciá-la. Depois, a cobra foi embora.

Pouco tempo depois, chegou o marido com as caças. Durante o jantar, ele perguntou:

― Mulher, você teve medo quando eu voltei em forma de cobra.

― Não, meu marido.

― Ótimo.

Tempos depois, o guerreiro havia saído para caçar quando entra a cobra na tenda. Ela começa a acariciá-la. Entra outra cobra. Mais outra. E outra. Eram muitas! Com medo de tantas cobras, ela fugiu da aldeia em louca correria.

Já exausta, ela chega à margem dum rio onde o Mestre dela estava sentado. Ele perguntou:

― Onde você pensa que vai? Você não pode fugir ainda. Casastes com sete irmãos. Volte para sua tenda. Pegue uma bolsa que está sob sua cama. Nela você encontrará os sete corações do seu marido e dos irmãos dele. Pegue a bolsa e volte.

A índia fez o que o Mestre dela mandou.

Ao voltar, o rio estava mais cheio e revolto. Ela não conseguia atravessá-lo a nado. Quase se afogando, ela viu o Mestre sobre uma pedra que aflorava seca. Desesperada ela pediu socorro.

Ele estendeu o cajado e a recolheu, pois para a sorte dela, havia um mestre a quem se socorrer.

Jesus nos quer desarmados ou armados?

Muitos religiosos, fazendo um discurso politicamente correto, dirão que Ele nos quer desarmados. Mas não é verdade. Jesus nos quer arma...