Arnaldo, um brilhante jornalista brasileiro enviou-me uma
história forte. Um presente que levarei comigo nesse ano novo e por muitos anos.
Quando o rio se aproxima do mar ele tem medo. O mar é
imenso, assustadoramente poderoso, o rio é pequeno, mas o rio não pode evitar o
encontro.
Depois de ter vencido tantos desafios: emergiu da terra;
atravessou montanhas; deu saltos espetaculares; contornou dificuldades;
atirou-se sobre pedras, venceu a maioria das batalhas. Tudo isso para chegar ao
mar.
Diante da imensidão oceânica, o rio terá que se atirar para
um desconhecido onde desaparecerá.
Lentamente, enquanto percorre a planície, o rio percebe que
no imenso oceano adiante ele não perecerá. Ao contrário, ele será mar salgado e
poderoso. Ele fará parte de algo ainda maior que o rio. Ele está pronto. Ele se
preparou para isso. É da vida do rio.
E mais tarde, como nuvens de chuva, ele retornará ao seco
onde novamente correrá como rio ou ele descansará como água interior, sempre participando
de grandes eventos e sempre trazendo vida abundante com ele.
Uma
colega professora de Ciência da Computação com doutorado no MIT fez uma
observação assustadora:
― Minha filha e o namorado
dela nem pensam em casar. Eu tenho três filhos com mais de 25 anos e nenhum
neto. Onde eles pensam que vão chegar se só pensam nas suas carreiras?
Boa pergunta. Ouvi, pois,
a resposta dela. Eu queria aprender.
Veja o caso de Portugal,
ele representa bem o Ocidente e o Japão.
1 Em 2015, havia apenas
1,23 filhos por portuguesa.
2 Hoje há em Portugal 10,3
milhões de habitantes.
3 Em 2040, quando minha
filha tiver 50 anos, a população de Portugal será de 9,4 milhões de pessoas.
Bem menor do que hoje.
4 Não é tudo. Quando minha
filha tiver 50 anos, de cada 100 portugueses, 77 terão 51 anos ou mais. Serão
7,3 milhões de pessoas com mais de 50 anos e 2,1 milhões de portugueses com
menos de 50 anos.
Quem vai recolher as
contribuições que pagarão as pensões das pessoas que já não trabalham?
― O paradoxo, professor, é
que minha filha e os amigos dela querem se dedicar ao trabalho para ter uma
vida confortável. E ao fazê-lo estão sendo condenados a morar em asilos e cidades
desertas.
Mostrei esses argumentos a
um colega psicólogo. Ele discordou de tudo. Ele é um homem de fé inabalável nas
ciências. Ele acredita que as ciências farão algum milagre: Brave new world!
Aprendi com Joseph Campbell, o maior
estudioso de Mitologia do século XX, que a tarefa do professor é falar, ensinar.
O Mestre responde às nossas perguntas. Então perguntei ao meu mestre:
— Mestre, o que devo fortalecer para
derrotar meus inimigos?
— Há pelo menos quatro coisas que
precisarás fazer: fortalecer os músculos, o coração, o cérebro e a alma.
(Σ) Fortaleça o braço, pois precisarás de
força para percorrer as sendas e contornar os obstáculos. Algumas vezes, infelizmente,
também terás de bater mais do que apanharás.
(Ψ) A fortaleza do coração o poupará das
emoções tóxicas, deletérias. Pergunte-se sempre: isso está me fazendo sofrer?
Porque o SENHOR não te fez para o sofrimento, sim para o prazer.
(Λ) Um cérebro vale pela sabedoria que
cultiva. Sábio é o homem que sabe o que fazer com os conhecimentos aprendidos
na vida e nos estudos. Seja sábio e antecipe os ataques dos seus inimigos.
(ר) Nenhum
projeto é realizável para o bem sem que estejas sintonizado com o ESPÍRITO do BEM SUPREMO.
— Mestre, assim eu vencerei todos os meus inimigos?
— Não creio nisso. Mas certamente haverá mais ganhos que
perdas. E no final terás onde repousar. Não te esqueças de agradecer aos
Céus pela vida dos seus inimigos, pois teu inimigo te obriga a ser um homem
reto.
― Professor, eu ainda não sei qual é a minha missão nessa
vida.
Eis um grande desafio da vida, encontrar no viver um
propósito. Este propósito é a missão. Os meios para realizar a missão são os
talentos, palavra antiga que significa dinheiro e habilidades.
― O que são talentos? Perguntou-me aquele aluno de Cultura
Organizacional.
― Talentos são todas as coisas que você faz com tanta
facilidade que parecem fáceis. O talento é a luz que orienta a missão.
― Por que preciso saber quais meus talentos, professor?
Contestou o estudante.
― Deixe-me contar uma parábola, talvez eu me faça entender.
Um homem rico voltava para casa na sua luxuosa carruagem.
Era sexta-feira e ele ia celebrar o sábado. Muito perto de casa, o homem rico
viu dois homens tentando tirar uma carroça de uma poça de lama. Pediu para o cocheiro
parar, e foi ajudar.
Naquela sexta-feira o rico senhor ficou até a noite se
esforçando para salvar a carroça e a carga, mas, por inexperiência, assustou os
cavalos e toda a carga de alimentos caiu na lama.
O cocheiro foi ao serviço religioso e lá encontrou uma viúva
com seus oito filhos que estavam com muita fome.
― Venham jantar em minha casa, disse o cocheiro.
Ao chegar à casa, o cocheiro descobriu que havia apenas
quatro peixinhos com arroz e um pouco de batatas. Nessa noite as duas famílias
ficaram com fome.
Se o cocheiro tivesse ajudado os homens da carroça e o seu
rico senhor tivesse convidado a viúva e seus filhos para o jantar, cada um
teria cumprido sua missão conforme os talentos deles. Cada um, segundo seus
talentos, cada um deles brilharia conforme a própria luz.
Qual pessoa com um pouco de experiência deve ter visto isso: o chefe sem talento dirigindo um departamento estratégico tomar decisões temerárias e fracassar, pois o único talento dele é a bajulação.
Nenhum sacerdote ou pastor conseguiu dizer-me "O que é amar o próximo como a si mesmo?"
Eu fico, por isso, com resposta de minha mulher. Amar o próximo é perdoar o próximo como a si mesmo, simples assim. Explico. Há leis morais que são difíceis
de aceitar, destaco duas: 1ª. Não desejar a mulher do próximo, não desejar a casa do próximo, nem mesmo o
jumento do próximo.
Um dia o poeta Vinícius de Morais perguntou:
― Não posso desejar nem mesmo o jumento do
próximo, SENHOR?
2ª. Amar ao próximo como a si mesmo.
― Isso é loucura.Penso que ninguém ama mais alguém como a si
mesmo. Qual o sinal de que o amor próprio é o maior amor do mundo? O
perdão.
Quem pode cometer todos os pecados do mundo e ainda assim
será perdoado? Eu mesmo. Eu sempre me perdoo, me justifico, racionalizo meus
comportamentos perversos.
O promotor de justiça recebeu uma mulher decidida a se
separar.
― Minha senhora, o que houve?
― Doutor, eu não aguento mais meu marido. Ele não me larga.
Fica perto de mim todo tempo a agarrar-me, beijar-me. Meu marido é um grude,
uma cola, uma sanguessuga.
O promotor ouviu a história e mandou chamar o marido
apaixonado. E depois de relatar brevemente o que se passava, ouviu a versão
dele.
― Doutor, minha mulher não sabe o que quer. Antigamente ela
reclamava que eu lhe dava pouca atenção. Eu sempre a amei, então, ficar com ela
é o que eu mais gosto. Agora ela reclama que eu sou muito apaixonado. O que
faço se ela está sempre descontente?
― Saiba que sua mulher está para pedir o divórcio por causa
do seu comportamento, comentou o promotor de justiça.
O homem riu e citou uma famosa frase atribuía a Freud em seu
leito de morte:
― Fazer o que, doutor. Nem Freud soube responder a pergunta “what do women want?”
Eu estava no Congresso Nacional colhendo assinaturas de
apoio para o orçamento do PET-Capes. Pedi a um deputado e ex-ministro da
Fazenda do Brasil que assinasse a moção que eu trazia, mas ele estava absorto
ouvindo um jovem deputado apresentar uma Teoria do Desenvolvimento
absolutamente infantil. Ridícula!
Então, eu perguntei espantado ao economista e ex-secretário
da Fazenda:
― Deputado, por que o senhor está se dando ao trabalho de
ouvir isso? Isso é uma bobagem sem tamanho.
― É verdade. Tudo que ele diz está errado, mas a ignorância
dá uma coragem...
Parece que é assim mesmo. As pessoas fazem coisas
inacreditáveis por pura ignorância. Mas por que mesmo aquele PhD em Economia,
professor, ex-secretário da Fazenda não pediu a palavra e não mandou o jovem
deputado calar-se? Por que ele se deu ao trabalho de ouvi-lo?
Infelizmente o professor-deputado com quem conversei já
morreu. Jamais saberei a respostas às minhas perguntas. Desconfio que ele fosse
velho o suficiente para ter aprendido que não adiantaria nada ele corrigir o
jovem e apressado deputado que proferia solenes disparates. Há coisas que só o
tempo ensina. Uma delas é ouvir asneira e ficar calado.
Eu também aprendi isso. Um dia cheguei irritado com as
bobagens que um colega estava a dizer e ouvi do meu pai uma reprimenda:
― Deixe seu colega falar, filho, pois quem profere as
insensatezes geralmente está muito orgulhoso de si e pouco disposto a aprender.
Demorei muito a entender o que meu pai falou naquele dia. Meu pai não sabia muito apenas porque era meu pai,
mas porque era velho.
Meu primo Alberto estava com mais ou menos doze anos. Uma
idade horrível. Jovem demais para namorar as colegas de classe.
― Papai, por que as meninas não olham para mim?
― Filho, eu acho que você está no caminho errado. Você se
apaixonou por uma menina que está apaixonada por ela mesma. Essa menina não vai
lhe dar atenção. Ela gosta mesmo é de se cuidar e parecer bonita.
Meu primo fechou a cara e saiu. Um tempo depois, voltou.
― O que eu faço?
― Filho, olhe para a menina que gosta de você.
― Papai, essa menina não existe.
O pai riu. Ele sabia que algumas coisas são difíceis de
entender e aprender. Daí, pacientemente ele disse o que pensava.
― Filho, certamente há uma boa menina de olho em você.
Mas você está obcecado demais por aquela Malagueña
para procurar entre as meninas alguma moça interessante. Encontre essa menina. “Deixe
essa mulher amar você”.
Uns 20 anos mais tarde, meu primo passou por um deserto com
um divórcio horroroso, briga judicial, partilha de bens, discussão de pensão.
Foi muito sofrimento, mas ele entendeu o que significa a frase “Deixe essa
mulher amar você” e ele já está casado com ela.
Filho, eu tenho muito medo de odiar. O ódio é uma criatura
estranha com enorme capacidade de invadir o corpo humano.
O ódio tem garras longas capazes de se agarrarem à alma e ao
coração. Como um vírus alienígena, ele se reproduz a partir de qualquer
fragmento que circular pelo sangue do seu hospedeiro.
O ódio é um velho ranzinza, doente, chato, baixinho, feio, mal-humorado e
alimenta-se da vida alheia.
Diziam os nossos sábios que o ódio é uma mancha
definitiva na alma. De tão pesado, ele vai para a cova do insurreto que o
abriga.
― Mas o que há de bom em ser odiado, papai?
― Quase nada, filho. Apenas um fragmento da bondade ficou nele:
ele é para sempre, nunca acaba. Quisera eu que o amor fosse assim...
― O que há de bom nisso, papai?
― Quem odeia, filho, nunca esquece o ser odiado, pois o
ódio é uma paixão (latim passio, passoinis, .ação de suportar,
.ação de sofrer), uma doença. A gratidão, ao contrario, faz bem a saúde de quem
diz “agradeço”. Agradecer é uma bênção. Por tudo se deve agradecer, mesmo pelo
não-sei-o-quê.
― Por tudo, papai?
― Por tudo, filho, pois faz bem. Agradecer desobstrui, poupa dinheiro, desemprega um analista, um médio e
duas assistentes sociais.
― Duas assistentes sociais?
― Sim, filho, pois a gratidão é um bem dos homens
abastados. Os pobres de espírito não são gratos, por definição.
Quando eu era bem jovem, descobri que no mundo animal não é raro
uma mãe abandonar um filho.
O que para mim foi um surpresa fez meu pai rir.
― Meu filho, na propriedade de meus pais, em Soure, uma das
tarefas das crianças era alimentar os borregos que foram rejeitados pelas mães
ao nascer.
Pois é, nem todas as mães amam. Uau! Eu tive sorte. Minha
mãe amava os filhos dela e o demonstrou com ações muitas vezes.
A pergunta, então, é: Pode-se aprender a amar?
Não sei. O que aprendi no meu trabalho de professor foi que
o ensinado não é automaticamente aprendido, e isso não é em princípio bom ou
ruim.
Aqui em Portugal, uma mãe que perdeu a guarda de três filhos
por desídia foi condenada a fazer um “treino
parental”. Se eu entendi, ensinarão aquela mulher a amar ou cuidar dos
filhos (cf. JN 28/10/2017).
Mas ela aprenderá o que lhe será ensinado?
Eu prefiro acreditar que aquela mãe aprenderá com o “treino
parental”. Mas haveria quem discordasse de mim.
O professor Urbano Rodríguez de saudosa memória gostava de
repetir um antigo provérbio mulçumano que penso que era assim:
― "Se puede llevar un camello al pozo, pero no se puede obligar a beber".
[“Pode-se levar o
camelo ao poço, mas não se lhe pode obrigar a beber”}. Ou seja, nem sempre se
aprende o que foi ensinado.
Muitas vezes na minha vida vivi a experiência de ser
ridículo.
Um dia, perguntei a uma colega:
― Quando seu bebê nascerá?
Ela não estava prenhe. A gorda tinha uma bela barriga.
Foi horrível. Fiz de tudo para não mais encontrá-la.
Noutra vez, vi minha professora de língua inglesa
cabisbaixa, com uma face triste e algum soluço. Haviam me dito que o
relacionamento dela havia terminado há pouco tempo.
Era uma cena estranha. Aquela irlandesa parecia viver apenas
para o trabalho e a carreira. Vê-la chorar era inusitado.
Eu e outros homens igualmente idiotas frequentemente nos
comovemos com o choro feminino. E para consolá-la, disse-lhe:
― “Don’t cry for him! You have your
career”.
Eu fui novamente ridículo. Na verdade, ela havia sido
demitida.
Alicinha, minha prima querida tinha apena 11 anos quando perguntou
a avó:
― Qual a diferença entre um encontro e amor, vovó?
― Querida, quando um jovem rico e bonito convida uma mulher
para jantar. Leva essa moça ao melhor restaurante da cidade a bordo de uma belo
carro. Abre uma garrafa de chamagne Moët & Chandon. Pede a melhor comida da
casa. Depois, leva a moça a um local requintado onde o casal passa uma noite
louca. E antes de adormecer, dá-lhe de presente uma pulseira de ouro e
brilhantes. Isso é um encontro, querida.
― E o amor, vovó?
― Amor é bobagem que o pobre inventou para dormir com uma
mulher.
Eva nasceu numa família
de sírios que viviam no Norte do Brasil. Na Áustria, quando fazia doutorado,
conheceu Adam Juergen, um alemão com quem foi casada por mais de 10
anos.
Infelizmente, eles
tinham uma dificuldade intransponível: o sonho de Juergen era casar-se com uma
mulher que ele amasse (Isso ele conseguiu!) e que ela o amasse também, este foi o
problema.
Eu achava que Eva amava Juergen. Eu, aliás, não tinha
dúvidas desse amor. Ele tinha muitas dúvidas. Então, encharcados de cerveja, um dia
conversamos sobre esse amor.
― Juergen, Eva te ama. Você sabia?
― Não ama. Ela nunca me disse “eu te amo” sem que eu
insistisse.
― Juergen, Eva é minha amiga desse os 4 anos de idade. Para
ela, amor é compromisso e não um sentimento.
― Para mim amor é sinônimo de paixão. Amar faz ferver o
sangue. Você não entende isso porque é racional demais [um chato].
― Juergen, para Eva amar é cuidar, é estar perto, é estar
disposta, entende-me?
― Eu aprendi português lendo uma tradução do Os Sofrimentos
do Jovem Werther, aquilo é amor!
― Juergen, aquilo é paixão impossível, é obsessão. Eva
aprendeu a língua alemã circulando nas ruas Viena, conversando contigo. Amor,
para ela é fazer companhia, andar juntos por aí. "Freund, das ist Liebe".
― Não concordo consigo.
― Juergen, entenda uma coisa: sua mulher Eva não entende
essas suas fantasias românticas. Para ela o amor é uma experiência venusiana .
Para ti, meu amigo querido, é um sentimento marciano.
Ainda hoje lembro muito bem dessa conversa. Lembro que Eva usava uma
sapatilha cor-de-rosa ridícula. Adam Juergen, sentado a minha frente
usava um agasalho quadriculado de flanela, estava frio. Foi a última vez que os vi juntos. Que pena...
Um dia uma professora doutora chegou à minha sala precisando
falar. Às vezes as pessoas somente querem falar e/ou sentir que a voz delas
repercute, sensibilizam.
Nesse dia, minha sala ouviu uma história linda!
A doutora me contou que não acreditava em D-us, entretanto, disse-me:
― “Eu rezo com meus filhos todas as noites”.
Não há muita razão para uma pessoa, seja homem ou mulher, que
tem juventude, beleza, dinheiro e saúde acredite em D-us. Parece que ter sorte de
ter o que tem é o suficiente.
Note, eu falei TEM juventude, pois a juventude passa. TEM
beleza, essa passa ainda mais rápida. TEM dinheiro, isso é uma ilusão. Pode-se perdê-lo
em minutos! TEM saúde. Ora, ter saúde é condição “sine qua” para morrer ou
adoecer.
― O que há de bonito nessa história?
A doutora sentada a minha frente não sabia a diferença entre
ter uma experiência com D-us e, portanto, confiança e ter fé. Fé é diferente de
confiança.
―A fé diz: Eu acredito no amor.
― A confiança diz: “Eu já vivi uma experiência amorosa. O
amor existe”.
OU
― Eu já senti a presença de d’Ele na minha vida. D-us
existe.
Isso não é fé. Isso é confiança. Mesmo assim devo dizer, obrigado
professora, por orar com seus filhos.
Em qualquer empresa os donos não as pessoas que mais ameaçam
a sobrevivência de um negócio.
Infelizmente não amamos ninguém como amamos a
nós mesmos e, facilmente, apontamos um culpado e nos perdoamos.
Um homem de negócio planejou uma aposentadoria tranquila.
Ele construiu duas dúzias de lojas num corredor comercial importante da cidade
em que morava.
Os aluguéis (arrendamentos) lhe davam 30 mil euros de renda mensal ou uma
vida confortável em qualquer cidade do mundo.
Certo dia, ele resolveu fazer um contrato arriscado e
ambicioso e entregou o terreno onde estavam as lojas nessa operação comercial.
Perdeu tudo no negócio. Ficou apenas com a casa onde habitava.
Poderia ficar pior e ficou. Sem dinheiro, não conseguiu
pagar a pensão que devia a ex-mulher que, de imediato, pediu a prisão dele por
dívida de pensão alimentícia.
Conheci-o preso, pobre, desesperado e, por ambição, causador
primário da própria desgraça. Entretanto ele dizia que o culpado era o outro. Ele
não aprendeu a lição:
Há condutas que revelam a origem das pessoas e das coisa, uma
delas é o gosto.
Não consigo imaginar um nobre correndo feito um louco sobre
sapatos altos. Isso é coisa de plebeu. Plebeus precisam correr. Eles são presas.
Presas precisam correr para sobreviver.
Um nobre correndo? Só em situações de fuga ou doença. Correr
é abreviar a vida. Se a vida é boa, por que eu teria pressa? Para morrer?
― A princesa Diana estava correndo no dia da morte dela,
dirias tu.
Verdade. Pobre e infeliz plebeia alçada à condição de princesa,
amada pelo povo, mas pelo marido parece que não. Princesa bibelô, enfeite que
se coloca sobre a mesa. Quando a felicidade parecia possível, ela morreu.
Convenhamos, quem estava correndo era o motorista do
namorado de Lady Di, um plebeu. Não era a princesa. Resultado da pressa: a princesa
Diana foi se encontrar com outro homem, Jesus.
Uma experiência crítica, do ponto de vista científico, é aquela
que não deixa dúvidas. Mas na vida comum também temos experiências críticas.
Num caso que acompanhei de separação complicada houve um
evento crítico. Depois de dois anos adiando a separação, meu amigo chegou na
praia com um dos filhos e contou-me que naquela manhã havia decidido se
separar.
― Tem certeza?
― Tenho, eu vou me separar.
― O que aconteceu camarada?
― Hoje pela manhã eu e a mulher brigamos novamente. Ela me
disse: “Se você for homem, se separe de mim. Vá embora. Pague-me uma pensão”.
― Sim, mas ela é passional e já teve outras reações assim.
O que mudou?
― Foi uma situação crítica. Ela não deixou espaço para a dúvida. O que você
faria se lhe dissessem para ir embora? Perguntou-me.
Fiquei calado, mas eu iria embora. Há limites até para a
insanidade.
― Não sei. Não me perguntem mais por que razões as pessoas
somem. Apenas sei dizer que somem. Há dois modos de pensar nisso: a descrição e
a explicação. E um único modo de não sofrer muito, aceitar que quase nunca
sabemos os porquês. Sabemos que somem, é só.
Quando meu primo era miúdo, ele tinha um colega no segundo
ano da escola, o Beto, de quem não ele deveria gostar, mas gostava muito. Meu
primo era estudioso, Beto também. Gostavam das mesmas coisas. Estudavam na
mesma sala. Tinham a mesma professora. Conduto, Beto era filho dum general e político
poderoso e, o mais importante, ele era o protegido da professora.
― Não deveria gostar? O que isso significa?
Explico. Em todas as avaliações, as notas de Beto eram mais
altas que as de meu primo, mesmo que fosse só um pouquinho. Nada que meu primo
fizesse agradava tanto a professora quanto os trabalhos de Beto. Meu primo
chegou a se queixar com meu tio. Piorou. Meu tio brigou com a professora, uma
mulher muito rancorosa.
Mesmo assim, aqueles dois meninos e um certo Emanuel, eram
grades amigos. E o foram por muito tempo, dos 7 anos aos 9, até que Beto sumiu.
Quando meu primo estava terminando Engenharia Aeronáutica, em
São José dos Campos, no Brasil, acho que terminando o mestrado, não tenho
certeza, ele encontrou novamente o Beto, por acaso. Reconheceu-o pelo dente incisivo
quebrado. Ele se lembrou do dia que o dente quebrou.
Nesse tempo, Beto era gerente de um órgão público em Recife.
Foi um encontro estranho. Eles não se viam desde que tinham 10 anos de idade.
Eram, então, homens feitos que foram amigos na infância, mas agora, o que eram?
Nesse encontro casual, eles conversaram um pouco. Cada um
deles achava que o outro não o havia reconhecido. Logo depois, meu primo foi
trabalhar num fábrica de helicópteros, na França.
Um dia, recebi uma ligação de meu primo. Ele estava morando
no Rio de Janeiro e fazendo 70 anos. Feliz, meu primo queria reunir a família.
As festas de meu primo eram ótimas, dizia-se. Ele era músico
e conhecia toda gente da música do Rio de Janeiro. Mas não pude ir à festa. Desde,
então, não vi mais meu primo. Hoje, eu vivo em Portugal.
Uma mulher chegou ao banco com uma pilha de cheques para
depositar às 16:01. O banco já estava fechado. Ela pediu ao segurança do banco
que abrisse a porta, ele se negou.
― Eu não posso senhora. Eu recebo ordens. O banco fecha às
16:00.
― Chame o gerente!
O gerente veio e pacientemente explicou a correntista que
não poderia fazer nada, pois o sistema já fecha automaticamente às 16:00 horas.
Disse o que ela poderia fazer para não ter muitas perdas, mas voltasse no dia
seguinte.
― Eu quero falar com a diretora. Chame a diretora. Agora!
A diretora veio. Ela era uma mulher enorme e bruta como
poucos. Os funcionários sabiam disso. A correntista contrariada desfilou todas as
reclamações e xingamentos, ali mesmo na frente do banco.
No meio da conversa,
tomou uma tapa da diretora do banco e, zonza, ouviu uma ordem:
― Volte amanhã!
A diretora voltou para o balcão e as contas voaram por todo lado. O vento levou alguns
cheques. Então, o gerente se aproximou e gentilmente disse:
― Senhora, eu lhe disse o que fazer. Por que a senhora não
me ouviu?
― Eu ouvi sua falação, gerente, mas a diretora me explicou
tudinho.
A história de Jó (ou Job) descreve o sofrimento de um homem
que perdeu quase tudo, menos os amigos. Estranho!
Por que Jó não perdeu os amigos?
Por que perder os amigos é morrer. Não há vida sem amigos e
aí está uma coisa para pensar.
A escola pode contribuir para que as pessoas
sejam amigas, acho que sim. E deve fazê-lo, pois as taxas de sofrimento intenso
são sinalizadas pelo suicídio
em Portugal. Vive-se uma época de sofrimento crescente.
Conta-se que os primeiros dias de aula do poeta Charles Baudelaire
foram sofridos. No primeiro dia o pai de Baudelaire ficou ao pé da porta da
escola esperando que o filho se acomodasse em sala, mas isso não era simples
para Baudelaire.
Um pouco depois de começar a aula, o pequeno e brilhante Charles,
com 7 anos, volta chorando para o pai, abraça-o e diz:
― “Papa, je ne suis pas comme les autres”.
Ele não era como os outros, claro. Ele era Baudelaire.
A escola deveria ser um lugar bem chato para Baudelaire que
viveu da palavra. Imagine-se um lugar onde as crianças não podiam conversar na
hora do almoço. Que chato! Criança não é cabrito que come calado e vai embora.
Criança fala.
Por essa dor, o poeta Carlos Drummond de Andrade
não passou. Na escola dele as crianças
conversavam na hora do almoço. A escola permitia. Falando se faz amigos. Ter
amigo é ter vida! Jó, o paradigma do sofrimento, perdeu quase tudo, mas manteve
os amigos.
____________
Carlos Drummond de Andrade teve um final de vida muito sofrido. Ele enterrou a própria filha que morreu precocemente. Esse sofrimento o marcou profundamente. Ele era pai.
Há pessoas boicotam a elas mesmas? Há pessoas que deixam
todas as oportunidades passar por toda a vida? Parece que sim.
Diz-se que nas enchentes causadas pelo furação Katrina em Luisiana
em 2005, um homem ficou no teto de uma casa alagada. Passou um barco e dele
alguém gritou:
― Vamos Ted, a chuva vai piorar.
― Podem ir, D-us cuida de mim!
Depois de alguns minutos, uma lancha apareceu e de lá alguém
chamou:
― Vamos senhor, a chuva vai piorar. Não perca essa
oportunidade (Do not miss this opportunity!)
― Podem ir, D-us cuida de mim, respondeu novamente.
Passado alguns minutos, a tempestade havia arrefecido um
pouco, um helicóptero se aproximou e jogou uma rede de salvamento. Ted fez
sinal de negativo e berrou:
― Podem ir, D-us cuida de mim!
A chuva piorou e Ted morreu levado pela pior tempestade
tropical dos últimos 30 anos.
Quando Ted chegou ao céu ele era um homem contrariado. Foi
direto ao trono do Eterno e meio desesperado argumentou:
― Senhor, eu esperei por Ti e não me socorreste.
― T e d, e u s o c o r r i. Mandei um barco pequeno e você não quis ser
resgatado. Mandei uma lancha e você não quis. Correndo muito risco, enviei um helicóptero
e você não aceitou o socorro. Você perdeu todas as oportunidades que te dei Ted
e queres me culpar. Ted, você se boicotou.
Luzinom estava devendo muito. Naquele tempo, a riqueza
estava concentrada na mão dos nobres. Pois um dia o Duque, dono de todo o
condado, resolveu ajudá-lo.
― Luzinom, eu vou lhe ajudar. Toda terra que você percorrer
até o por do Sol de hoje será sua.
Luzinom começou a correr. Correu. Correu. Depois de meia
hora, ele já estava rico, mas continuou a correr. Então, passou por um grupo de
camponeses que estavam limpando um prado.
― Luzinom, vem nos ajudar. Somos 9 homens, precisamos de
mais um só.
― Não posso. Estou com pressa! Gritou.
Mais adiante, um grupo estava almoçando.
― Luzinom, vem almoçar conosco. Nós fizemos um cordeiro!
― Não posso, estou com pressa! E correu.
Adiante passou por um grupo que se preparava para tirar uma
vaca de uma poça de lama. A vaca estava morrendo e faria muita falta a um
camponês pobre.
― Luzinom, vem ajudar. Precisamos tirar essa vaca do atoleiro!
― Não posso! Estou com pressa!
Quando o Sol se punha sobre a copa das árvores do pomar, ele
chegou exausto ao castelo. De tão estafado, caiu aos pés do Duque e ali mesmo
morreu. O Duque mandou encomendar a alma de Luzinom e o enterrou num lote de 1
metro por 3 metros. Sobre a cova funda pos uma lápide que dizia:
Há três fatores que justificam a migração.
Fator é um conjunto de justificativas (variáveis) que estão fortemente
relacionadas entre elas. Variáveis, nesse caso, são as razões para migrar. A
atração é o primeiro fator ou conjunto de razões para migrar.
Na década de 1970, muitos brasileiros que
viviam no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, venderam suas casas e
propriedades rurais e se mudaram para Mato Grosso e Rondônia.
— Qual eram as atrações?
Objetivamente eram terras boas e baratas;
incentivos governamentais; qualidade do ambiente; taxas de retorno do
agronegócio; taxa de juros.
— E os fatores de expulsão?
Na década de 1880, Japão tinha uma
superpopulação sem emprego, sem terra, endividada, sem esperança e vivendo em
más condições ambientais. A vida no Japão era muito dura.
O governo japonês fez
acordo com outros países com objetivo de lhes enviar migrantes. O Brasil fez
parte desses acordos, assim como a Coreia e os Estados Unidos e recebeu muitos
japoneses.
— O terceiro fator é afetivo.
A migração é justificada por sentimentos.
Por exemplo, admira-se a cultura de outro país. Muitos dos migrantes que saíram
do Brasil para Israel tinham motivações afetivas. Muitos não são religiosos,
mas fizeram “aliá”. Esse Esse terceiro fator parece que se chama esperança.
— O direito de migrar.
Eu disse que havia três fatores que
justificavam a migração, mas hoje há um quarto fator, sobre o qual se teorizou
pouco: o direito de migrar. Esse “D'Artagnan” ou quarto mosqueteiro é o Direito
de Migrar. Não importam as razões, nós temos o direito de migrar, de procurar
uma vida melhor. Aliás, temos obrigação de ser felizes.
A vida não porto seguro, mas os que lutam podem vencer a
guerra.
Na universidade, a sala de aula é para quem
precisa estudar. O laboratório é o sítio de quem gostam de estudar.
Aprendi
isso com meus melhores alunos. Nini era uma dessas personagens. Ela tinha grande talento para servir e liderar.
Uma vez levei o Reitor da minha
universidade ao meu laboratório. Como o laboratório fica noutro campus
universitário a 203 quilômetros da reitoria, nos atrasamos.
— Magnífico, se chegarmos muito atrasados à
reunião do laboratório, os alunos tomarão as decisões que cabe a eles e vão
para casa, pois eles não costumam atrasar, disse eu ao Reitor.
O reitor sorriu com o canto da boca,
incrédulo.
Quando cheguei ao laboratório havia um
bilhete para mim: professor, infelizmente o senhor está atrasado. Nós fizemos a
reunião, estudamos o texto. Volto mais tarde.
Entreguei o bilhete ao Reitor e devolvi o sorriso com certo orgulho.
À noite, antes da reunião administrativa
com a reitoria, Nini voltou ao laboratório chorando muito. Esperei que ela se
acalmasse. Por fim perguntei:
— O que houve amiga?
— Uma aluna daqui com quem nunca eu falei
está envolvendo meu nome numa discórdia. Ela fala mal de mim para toda gente.
Eu nem sabia o nome dela, professor.
Eu não resisti e fiz uma observação talvez
dura demais. Disse-lhe:
Meu amigo Telmo é uma das mentes mais
brilhantes que conheci, seja como músico ou como psicólogo. Eu sempre lhe fiz
pedidos absurdos: Telmo, você pode tocar Espinha de Bacalhau no saxofone?
Ou perguntas de respostas impossíveis: por que o aluno de quem mais cuidei para
que ele fizesse sucesso me odeia? Ele olhou para mim e riu. Eu senti o quanto
tenho que aprender.
Na década de 1980 eu era professor num
departamento de licenciatura onde estudavam os alunos mais pobres da
universidade. Dentre eles, um se destacava pelo brilho.
Meu Brilhante Aluno era feliz e triste.
Imagino que a força e disciplina faziam dele um homem feliz, mas as
dificuldades da vida na época de estudante de licenciatura impunham suas dores.
Um dos sinais de dificuldade eram as
sandálias que ele usava em sala de aula, de tão gasta não tinha mais o
calcanhar.
No meu aniversário daquele ano meu pai me
deu um belo chinelo que estava na moda e era bem caro. Experimentei-o. Gostei,
mas não seria meu.
Após a aula da manhã do dia seguinte, eu
encontrei meu brilhante aluno. Ele continuava a usar a sandália comida no
calcanhar, algo difícil de imaginar.
Chamei-o de lado e disse-lhe:
— Amigo, vamos ali comigo?
Quando cheguei ao carro, abri o maleiro e
dei-lhe a caixa com os chinelos. Disse que eu comprei, mas meu pai me deu
outra.
— Não preciso de dois chinelos. Se você os quiser, são seus.
Ele calçou feliz. Era perfeito. Ele tinha a
minha altura. Hoje meu ex-aluno é um Professor Doutor Brilhante, mas ele não fala comigo há anos. Por que, amigo?
— Talvez ele tenha vergonha. Talvez ele se
defenda odiando. Telmo disse-me aquilo rindo. Ainda hoje não sei se ele estava de fato me respondendo ou rindo de minha ignorância. O meu consolo foi ouvir Telmo Valença tocar Espinha de Bacalhau no saxofone. Que maravilha!
Era meio-dia e meia. Frequentemente almoçamos nesse horário em
minha casa. Dia 29 de agosto de 2017 não seria diferente.
Eu e minha família paramos num restaurante em Lisboa, na
zona do Parque das Nações. Não o conhecia, mas tinha boa aparência. Olhamos a
ementa (cardápio). Pareceu muito interessante.
Procurei uma mesa mais próxima possível do balcão de
atendimento com a intenção de facilitar o atendimento. Sentamos. Nós estávamos
com muita saudade da boa comida lisboeta, do cheiro agridoce dos temperos
tradicionais.
Havia dois garçons ― uma mulher e um homem ― e
outra pessoa, talvez um gerente. Esperei que algum dos três funcionários
olhasse para nós, afinal éramos seis. Não olharam. Fiz um sinal sonoro
discreto. Não adiantou. Os garçons estavam preparando outras mesas para receber
os clientes. Precisamente, eles colocavam toalhas de papel sobre as mesas.
Depois de muito tempo, pelo
menos uns 5 minutos, eu desisti e chamei meu povo. Fomos almoçar num boteco que
já conhecíamos. Mineiro de Belo Horizonte gosta de comida-de-boteco.
Logo que chegamos ao boteco tão querido, o lugar já estava
lotado. O dono na caixa fez um breve comprimento. A mulher dele sorriu e pediu
que esperássemos. Fomos atendidos logo. Não demorou mais que 5 minutos para ela
tirar o pedido.
Almoçamos muito bem e, principalmente, fomos muito bem
atendidos.
Agora me pergunto: Se uma pessoa gosta mais de arrumar o
salão do restaurante que atender aos clientes desse mesmo restaurante, por que
não foi ser o zelador? Não se pode
servir a dois deuses ciumentos ao mesmo tempo.
Na verdade, eu entendo tudo isso. Quando uma empresa vai à
falência principalmente porque não dá atenção ao cliente, porque seus
funcionários não gostam de clientes, nem de vender, o dono sempre pode
racionalizar e culpar alguém ou alguma coisa pelo fracasso. Depois e dormir
endividado, mas livre de culpa e pecados do próprio fracasso.
Passo 1. A invenção da tristeza. O rapaz
inventa que está sofrendo por alguma razão (doença, perdas, frustrações);
Passo 2. A abordagem triste. Ele se
aproxima da vítima, por exemplo, uma mulher com quem ele quer dormir e conta a
história triste dele. Sensibiliza a ouvinte. Fá-la sentir dó dele;
Passo 3. O golpe. Em seguida ele pede o que
quer (dinheiro, sexo, atenção, afeto).
Funciona melhor que o Golpe do tapete angolano.
Conheci um especialista. Ele aplicou esse
golpe durante vida toda, mesmo quando era um senhorzinho. A versão predileta
dele era a tristeza ou a dor. Sofreu de tudo: transtorno de ansiedade, pânico,
depressão, hipertensão arterial, cefaleia, gastrite, cálculo renal.
Por ultimo, convenceu a todos que estava
com câncer (cancro). Até o oncologista acreditou nas queixas dele e iniciou um
tratamento. Em virtude de uso abusivo de medicamento, ele morreu. Morreu feliz
repetindo o bordão: “Agora vocês acreditam?”
Dona Jupira e Seu Chiquinho, um casal lindo que vivia no
isolado Vale da Babilônia, bem que poderiam responder. Mas a pergunta não lhes
foi feita. Pelo menos não assim.
O jornalista queria apenas saber como as pessoas viviam num dos
sítios mais isolados das Minas Gerais, sudeste do Brasil. E começou a gravar
cedo, no curral, vendo Seu Chiquinho ordenhar.
Ordenha é trabalho duro. Exige vigor, paciência, habilidade,
força e, nesse caso, capacidade de suportar o frio da Serra da Canastra.
― Dona Jupira ajuda o senhor, Seu Chiquinho?
― Ajuda, ajuda sim senhor..
― O que Dona Jupira faz?
― Ela solta o bezerro.
Depois, na cozinha, fogo da casa, Dona Jupira começa a assar uns
pães-de-queijo. Encantado com o sabor, o cheiro, a textura da
iguaria, o jornalista pergunta:
― Seu Chiquinho, que tal montarmos um negócio para vender
pão-de-queijo em São Paulo? Ganharíamos bastante dinheiro. Esse pão é divino.
Seu Chiquinho não respondeu. Não carecia.
― Dona Jupira, Seu Chiquinho lhe ajuda a preparar os
pães-de-queijo?
― Ajuda.
E a câmera fecha nas mãos calejadas de Seu Chiquinho fazendo bolinhas com a
massa do pão-de-queijo.
― Como foi que o senhor conheceu Dona Jupira?
― Nossos pais eram amigos. Quando eles saiam para caçar, eu
ficava tomando conta dela.
― O namoro naquele tempo era diferente, não era Seu
Chiquinho? Era só olhares. Mãos dadas...
Nesse instante o olhar de Dona Jupira atravessou a conversa: Mão na mão? Que ridículo! Será que esse senhor nunca amou?
Numa cidade do interior gelado da Argentina havia
dois padres: um deles era um homem piedoso, cumpridor dos deveres religiosos e
civis, justo, reservado; o outro era impiedoso, tinha uma namorada, bebia muito, frequentava lugares impróprios.
Ambos já idosos, eis que morreu o padre
impiedoso. Morreu devagarinho depois de passar um tempo na casa de uma sobrinha
que vivia na capital. No dia do enterro, a cidade parou. A prefeitura decretou
feriado. As escolas fecharam. Os sinos dobraram.
Muita gente foi ao enterro. O cemitério esteve
lotado. Foi um dia de estórias e tristezas. Mas também foi uma festa. Toda gente da região veio assistir ao ofício religioso e acompanhar o esquife até a
cova. Gente chorou. Gente orou.
Algum tempo depois, morreu o padre piedoso
e justo. Fizeram-lhe uma missa apressada. Enterraram-no na companhia de 6 a 8
pessoas, incluindo o coveiro, claro. Não foi feriado. Não houve cortejo. Não se soube que alguém chorou. Pareceu que uma folha caiu duma árvore.
Hoje, já passado tanto tempo, eu pergunto:
— Por que o mal parece tão encantador?
— Por que não gostamos de fato do bem?
Embora o digamos...
— Quem sabe o nome do chanceler alemão que sucedeu a Hitler?
O professor Joseph Campbell contou, em 1987, a seguinte
história.
Numa certa tribo americana havia uma jovem índia muito
bonita que desdenhava de todos os guerreiros que a cortejavam. Nenhum deles era
bom o suficiente para ela. A todos evitava.
Um dia, ela sai para recolher lenha seca com a mãe dela numa
mata próxima. De repente, começou uma tempestade. As duas, então, abrigaram-se
numa caverna e ascenderam uma fogueira, pois o lugar era escuro e frio.
Quando a chuva passou, um guerreiro alto e forte apareceu na
entrada da caverna. A jovem índia ficou encantada com ele. Não demorou até que
o guerreiro pediu a bela índia em casamento.
Casaram-se e foram morar no novo território.
Na nova tenda, passaram juntas três noites seguidas. Quando
a comida acabou, o guerreiro disse à mulher que ia caçar.
No final da tarde, uma cobra imensa entrou na tenda e foi
até a índia. Passado o susto, ela começou a acariciá-la. Depois, a cobra foi
embora.
Pouco tempo depois, chegou o marido com as caças. Durante o
jantar, ele perguntou:
― Mulher, você teve medo quando eu voltei em forma de
cobra.
― Não, meu marido.
― Ótimo.
Tempos depois, o guerreiro havia saído para caçar quando
entra a cobra na tenda. Ela começa a acariciá-la. Entra outra cobra. Mais
outra. E outra. Eram muitas! Com medo de tantas cobras, ela fugiu da aldeia em
louca correria.
Já exausta, ela chega à margem dum rio onde o Mestre dela
estava sentado. Ele perguntou:
― Onde você pensa que vai? Você não pode fugir ainda.
Casastes com sete irmãos. Volte para sua tenda. Pegue uma bolsa que está sob
sua cama. Nela você encontrará os sete corações do seu marido e dos irmãos dele.
Pegue a bolsa e volte.
A índia fez o que o Mestre dela mandou.
Ao voltar, o rio estava mais cheio e revolto. Ela não conseguia
atravessá-lo a nado. Quase se afogando, ela viu o Mestre sobre uma pedra que
aflorava seca. Desesperada ela pediu socorro.
Ele estendeu o cajado e a recolheu, pois para a sorte dela,
havia um mestre a quem se socorrer.