sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Não consigo imaginar a Rainha Elizabeth II correndo.




Há condutas que revelam a origem das pessoas e das coisa, uma delas é o gosto. 

Não consigo imaginar um nobre correndo feito um louco sobre sapatos altos. Isso é coisa de plebeu. Plebeus precisam correr. Eles são presas. Presas precisam correr para sobreviver.

Um nobre correndo? Só em situações de fuga ou doença. Correr é abreviar a vida. Se a vida é boa, por que eu teria pressa? Para morrer?

― A princesa Diana estava correndo no dia da morte dela, dirias tu.

Verdade. Pobre e infeliz plebeia alçada à condição de princesa, amada pelo povo, mas pelo marido parece que não. Princesa bibelô, enfeite que se coloca sobre a mesa. Quando a felicidade parecia possível, ela morreu.

Convenhamos, quem estava correndo era o motorista do namorado de Lady Di, um plebeu. Não era a princesa. Resultado da pressa: a princesa Diana foi se encontrar com outro homem, Jesus.

Se a vida é boa, por que correr como um plebeu?


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Seja feliz agora, se a separação te fará feliz, seja feliz!


Uma experiência crítica, do ponto de vista científico, é aquela que não deixa dúvidas. Mas na vida comum também temos experiências críticas.

Num caso que acompanhei de separação complicada houve um evento crítico. Depois de dois anos adiando a separação, meu amigo chegou na praia com um dos filhos e contou-me que naquela manhã havia decidido se separar.

― Tem certeza?

― Tenho, eu vou me separar.

― O que aconteceu camarada?

― Hoje pela manhã eu e a mulher brigamos novamente. Ela me disse: “Se você for homem, se separe de mim. Vá embora. Pague-me uma pensão”.

― Sim, mas ela é passional e já teve outras reações assim. O que mudou?

― Foi uma situação crítica. Ela não deixou espaço para a dúvida. O que você faria se lhe dissessem para ir embora? Perguntou-me.

Fiquei calado, mas eu iria embora. Há limites até para a insanidade.

As pessoas somem, é um fato.

― Por que as pessoas somem?

― Não sei. Não me perguntem mais por que razões as pessoas somem. Apenas sei dizer que somem. Há dois modos de pensar nisso: a descrição e a explicação. E um único modo de não sofrer muito, aceitar que quase nunca sabemos os porquês. Sabemos que somem, é só.

Quando meu primo era miúdo, ele tinha um colega no segundo ano da escola, o Beto, de quem não ele deveria gostar, mas gostava muito. Meu primo era estudioso, Beto também. Gostavam das mesmas coisas. Estudavam na mesma sala. Tinham a mesma professora. Conduto, Beto era filho dum general e político poderoso e, o mais importante, ele era o protegido da professora.

― Não deveria gostar? O que isso significa?

Explico. Em todas as avaliações, as notas de Beto eram mais altas que as de meu primo, mesmo que fosse só um pouquinho. Nada que meu primo fizesse agradava tanto a professora quanto os trabalhos de Beto. Meu primo chegou a se queixar com meu tio. Piorou. Meu tio brigou com a professora, uma mulher muito rancorosa.

Mesmo assim, aqueles dois meninos e um certo Emanuel, eram grades amigos. E o foram por muito tempo, dos 7 anos aos 9, até que Beto sumiu.

Quando meu primo estava terminando Engenharia Aeronáutica, em São José dos Campos, no Brasil, acho que terminando o mestrado, não tenho certeza, ele encontrou novamente o Beto, por acaso. Reconheceu-o pelo dente incisivo quebrado. Ele se lembrou do dia que o dente quebrou.

Nesse tempo, Beto era gerente de um órgão público em Recife. Foi um encontro estranho. Eles não se viam desde que tinham 10 anos de idade. Eram, então, homens feitos que foram amigos na infância, mas agora, o que eram?

Nesse encontro casual, eles conversaram um pouco. Cada um deles achava que o outro não o havia reconhecido. Logo depois, meu primo foi trabalhar num fábrica de helicópteros, na França.
Um dia, recebi uma ligação de meu primo. Ele estava morando no Rio de Janeiro e fazendo 70 anos. Feliz, meu primo queria reunir a família.


As festas de meu primo eram ótimas, dizia-se. Ele era músico e conhecia toda gente da música do Rio de Janeiro. Mas não pude ir à festa. Desde, então, não vi mais meu primo. Hoje, eu vivo em Portugal.

domingo, 24 de setembro de 2017

Há pessoas que só compreendem apanhando, e não sabem disso.

Uma mulher chegou ao banco com uma pilha de cheques para depositar às 16:01. O banco já estava fechado. Ela pediu ao segurança do banco que abrisse a porta, ele se negou.

― Eu não posso senhora. Eu recebo ordens. O banco fecha às 16:00.

― Chame o gerente!

O gerente veio e pacientemente explicou a correntista que não poderia fazer nada, pois o sistema já fecha automaticamente às 16:00 horas. Disse o que ela poderia fazer para não ter muitas perdas, mas voltasse no dia seguinte.

― Eu quero falar com a diretora. Chame a diretora. Agora!

A diretora veio. Ela era uma mulher enorme e bruta como poucos. Os funcionários sabiam disso. A correntista contrariada desfilou todas as reclamações e xingamentos, ali mesmo na frente do banco. 

No meio da conversa, tomou uma tapa da diretora do banco e, zonza, ouviu uma ordem:

― Volte amanhã!

A diretora voltou para o balcão e as contas  voaram por todo lado. O vento levou alguns cheques. Então, o gerente se aproximou e gentilmente disse:

― Senhora, eu lhe disse o que fazer. Por que a senhora não me ouviu?


― Eu ouvi sua falação, gerente, mas a diretora me explicou tudinho.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Ter amigo é ter vida


Jó perdeu quase tudo, mas manteve os amigos.

A história de Jó (ou Job) descreve o sofrimento de um homem que perdeu quase tudo, menos os amigos. Estranho!

Por que Jó não perdeu os amigos?

Por que perder os amigos é morrer. Não há vida sem amigos e aí está uma coisa para pensar. 

A escola pode contribuir para que as pessoas sejam amigas, acho que sim. E deve fazê-lo, pois as taxas de sofrimento intenso são sinalizadas pelo suicídio em Portugal. Vive-se uma época de sofrimento crescente.

Conta-se que os primeiros dias de aula do poeta Charles Baudelaire foram sofridos. No primeiro dia o pai de Baudelaire ficou ao pé da porta da escola esperando que o filho se acomodasse em sala, mas isso não era simples para Baudelaire.

Um pouco depois de começar a aula, o pequeno e brilhante Charles, com 7 anos, volta chorando para o pai, abraça-o e diz:

― “Papa, je ne suis pas comme les autres”.

Ele não era como os outros, claro. Ele era Baudelaire.

A escola deveria ser um lugar bem chato para Baudelaire que viveu da palavra. Imagine-se um lugar onde as crianças não podiam conversar na hora do almoço. Que chato! Criança não é cabrito que come calado e vai embora. Criança fala.

Por essa dor, o poeta Carlos Drummond de Andrade não passou. Na escola dele as crianças conversavam na hora do almoço. A escola permitia. Falando se faz amigos. Ter amigo é ter vida! Jó, o paradigma do sofrimento, perdeu quase tudo, mas manteve os amigos.

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Carlos Drummond de Andrade teve um final de vida muito sofrido. Ele enterrou a própria filha que morreu precocemente. Esse sofrimento o marcou profundamente. Ele era pai.

domingo, 17 de setembro de 2017

Do not miss this opportunity!


Há pessoas boicotam a elas mesmas? Há pessoas que deixam todas as oportunidades passar por toda a vida? Parece que sim.

Diz-se que nas enchentes causadas pelo furação Katrina em Luisiana em 2005, um homem ficou no teto de uma casa alagada. Passou um barco e dele alguém gritou:

― Vamos Ted, a chuva vai piorar.

― Podem ir, D-us cuida de mim!

Depois de alguns minutos, uma lancha apareceu e de lá alguém chamou:

― Vamos senhor, a chuva vai piorar. Não perca essa oportunidade (Do not miss this opportunity!)

― Podem ir, D-us cuida de mim, respondeu novamente.

Passado alguns minutos, a tempestade havia arrefecido um pouco, um helicóptero se aproximou e jogou uma rede de salvamento. Ted fez sinal de negativo e berrou:

― Podem ir, D-us cuida de mim!

A chuva piorou e Ted morreu levado pela pior tempestade tropical dos últimos 30 anos.

Quando Ted chegou ao céu ele era um homem contrariado. Foi direto ao trono do Eterno e meio desesperado argumentou:

― Senhor, eu esperei por Ti e não me socorreste.


T e d,  e u   s o c o r r i. Mandei um barco pequeno e você não quis ser resgatado. Mandei uma lancha e você não quis. Correndo muito risco, enviei um helicóptero e você não aceitou o socorro. Você perdeu todas as oportunidades que te dei Ted e queres me culpar. Ted, você se boicotou.

sábado, 16 de setembro de 2017

Ele corre porque deve muito


Luzinom estava devendo muito. Naquele tempo, a riqueza estava concentrada na mão dos nobres. Pois um dia o Duque, dono de todo o condado, resolveu ajudá-lo.

― Luzinom, eu vou lhe ajudar. Toda terra que você percorrer até o por do Sol de hoje será sua.

Luzinom começou a correr. Correu. Correu. Depois de meia hora, ele já estava rico, mas continuou a correr. Então, passou por um grupo de camponeses que estavam limpando um prado.

― Luzinom, vem nos ajudar. Somos 9 homens, precisamos de mais um só.

― Não posso. Estou com pressa! Gritou.

Mais adiante, um grupo estava almoçando.

― Luzinom, vem almoçar conosco. Nós fizemos um cordeiro!

― Não posso, estou com pressa! E correu.

Adiante passou por um grupo que se preparava para tirar uma vaca de uma poça de lama. A vaca estava morrendo e faria muita falta a um camponês pobre.

― Luzinom, vem ajudar. Precisamos tirar essa vaca do atoleiro!

― Não posso! Estou com pressa!

Quando o Sol se punha sobre a copa das árvores do pomar, ele chegou exausto ao castelo. De tão estafado, caiu aos pés do Duque e ali mesmo morreu. O Duque mandou encomendar a alma de Luzinom e o enterrou num lote de 1 metro por 3 metros. Sobre a cova funda pos uma lápide que dizia:


“Aqui jaz um homem que correia porque deve muito

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Quando eu crescer eu quero ser migrante

[Para a professora Luana]


Há três fatores que justificam a migração. Fator é um conjunto de justificativas (variáveis) que estão fortemente relacionadas entre elas. Variáveis, nesse caso, são as razões para migrar. A atração é o primeiro fator ou conjunto de razões para migrar.

Na década de 1970, muitos brasileiros que viviam no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, venderam suas casas e propriedades rurais e se mudaram para Mato Grosso e Rondônia.

— Qual eram as atrações?

Objetivamente eram terras boas e baratas; incentivos governamentais; qualidade do ambiente; taxas de retorno do agronegócio; taxa de juros.

— E os fatores de expulsão?

Na década de 1880, Japão tinha uma superpopulação sem emprego, sem terra, endividada, sem esperança e vivendo em más condições ambientais. A vida no Japão era muito dura. 

O governo japonês fez acordo com outros países com objetivo de lhes enviar migrantes. O Brasil fez parte desses acordos, assim como a Coreia e os Estados Unidos e recebeu muitos japoneses.

— O terceiro fator é afetivo.

A migração é justificada por sentimentos. Por exemplo, admira-se a cultura de outro país. Muitos dos migrantes que saíram do Brasil para Israel tinham motivações afetivas. Muitos não são religiosos, mas fizeram “aliá”. Esse Esse terceiro fator parece que se chama esperança.

— O direito de migrar.


Eu disse que havia três fatores que justificavam a migração, mas hoje há um quarto fator, sobre o qual se teorizou pouco: o direito de migrar. Esse “D'Artagnan” ou quarto mosqueteiro é o Direito de Migrar. Não importam as razões, nós temos o direito de migrar, de procurar uma vida melhor. Aliás, temos obrigação de ser felizes.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Bem vindo ao mundo dos adultos



[Para Nini]

A vida não porto seguro, mas os que lutam podem vencer a guerra.

Na universidade, a sala de aula é para quem precisa estudar. O laboratório é o sítio de quem gostam de estudar. 

Aprendi isso com meus melhores alunos. Nini era uma dessas personagens. Ela tinha grande talento para servir e liderar.

Uma vez levei o Reitor da minha universidade ao meu laboratório. Como o laboratório fica noutro campus universitário a 203 quilômetros da reitoria, nos atrasamos.

— Magnífico, se chegarmos muito atrasados à reunião do laboratório, os alunos tomarão as decisões que cabe a eles e vão para casa, pois eles não costumam atrasar, disse eu ao Reitor.

O reitor sorriu com o canto da boca, incrédulo.

Quando cheguei ao laboratório havia um bilhete para mim: professor, infelizmente o senhor está atrasado. Nós fizemos a reunião, estudamos o texto. Volto mais tarde.

Entreguei o bilhete ao Reitor e devolvi o sorriso com certo orgulho.

À noite, antes da reunião administrativa com a reitoria, Nini voltou ao laboratório chorando muito. Esperei que ela se acalmasse. Por fim perguntei:

— O que houve amiga?

— Uma aluna daqui com quem nunca eu falei está envolvendo meu nome numa discórdia. Ela fala mal de mim para toda gente. Eu nem sabia o nome dela, professor.


Eu não resisti e fiz uma observação talvez dura demais. Disse-lhe:


— Bem vinda ao mundo dos adultos, Nini.

sábado, 2 de setembro de 2017

Por que me odeias se eu nunca te amei?


Meu amigo Telmo é uma das mentes mais brilhantes que conheci, seja como músico ou como psicólogo. Eu sempre lhe fiz pedidos absurdos: Telmo, você pode tocar Espinha de Bacalhau no saxofone? 

Ou perguntas de respostas impossíveis: por que o aluno de quem mais cuidei para que ele fizesse sucesso me odeia? Ele olhou para mim e riu. Eu senti o quanto tenho que aprender.

Na década de 1980 eu era professor num departamento de licenciatura onde estudavam os alunos mais pobres da universidade. Dentre eles, um se destacava pelo brilho.

Meu Brilhante Aluno era feliz e triste. Imagino que a força e disciplina faziam dele um homem feliz, mas as dificuldades da vida na época de estudante de licenciatura impunham suas dores.

Um dos sinais de dificuldade eram as sandálias que ele usava em sala de aula, de tão gasta não tinha mais o calcanhar.

No meu aniversário daquele ano meu pai me deu um belo chinelo que estava na moda e era bem caro. Experimentei-o. Gostei, mas não seria meu.

Após a aula da manhã do dia seguinte, eu encontrei meu brilhante aluno. Ele continuava a usar a sandália comida no calcanhar, algo difícil de imaginar. 

Chamei-o de lado e disse-lhe:

— Amigo, vamos ali comigo?

Quando cheguei ao carro, abri o maleiro e dei-lhe a caixa com os chinelos. Disse que eu comprei, mas meu pai me deu outra.

— Não preciso de dois chinelos. Se você os quiser, são seus.

Ele calçou feliz. Era perfeito. Ele tinha a minha altura. Hoje meu ex-aluno é um Professor Doutor Brilhante, mas ele não fala comigo há anos. Por que, amigo?

— Talvez ele tenha vergonha. Talvez ele se defenda odiando. 

Telmo disse-me aquilo rindo. Ainda hoje não sei se ele estava de fato me respondendo ou rindo de minha ignorância. 

O meu consolo foi ouvir Telmo Valença tocar Espinha de Bacalhau no saxofone. Que maravilha!







Jesus nos quer desarmados ou armados?

Muitos religiosos, fazendo um discurso politicamente correto, dirão que Ele nos quer desarmados. Mas não é verdade. Jesus nos quer arma...