Há condutas que revelam a origem das pessoas e das coisa, uma
delas é o gosto.
Não consigo imaginar um nobre correndo feito um louco sobre
sapatos altos. Isso é coisa de plebeu. Plebeus precisam correr. Eles são presas.
Presas precisam correr para sobreviver.
Um nobre correndo? Só em situações de fuga ou doença. Correr
é abreviar a vida. Se a vida é boa, por que eu teria pressa? Para morrer?
― A princesa Diana estava correndo no dia da morte dela,
dirias tu.
Verdade. Pobre e infeliz plebeia alçada à condição de princesa,
amada pelo povo, mas pelo marido parece que não. Princesa bibelô, enfeite que
se coloca sobre a mesa. Quando a felicidade parecia possível, ela morreu.
Convenhamos, quem estava correndo era o motorista do
namorado de Lady Di, um plebeu. Não era a princesa. Resultado da pressa: a princesa
Diana foi se encontrar com outro homem, Jesus.
Uma experiência crítica, do ponto de vista científico, é aquela
que não deixa dúvidas. Mas na vida comum também temos experiências críticas.
Num caso que acompanhei de separação complicada houve um
evento crítico. Depois de dois anos adiando a separação, meu amigo chegou na
praia com um dos filhos e contou-me que naquela manhã havia decidido se
separar.
― Tem certeza?
― Tenho, eu vou me separar.
― O que aconteceu camarada?
― Hoje pela manhã eu e a mulher brigamos novamente. Ela me
disse: “Se você for homem, se separe de mim. Vá embora. Pague-me uma pensão”.
― Sim, mas ela é passional e já teve outras reações assim.
O que mudou?
― Foi uma situação crítica. Ela não deixou espaço para a dúvida. O que você
faria se lhe dissessem para ir embora? Perguntou-me.
Fiquei calado, mas eu iria embora. Há limites até para a
insanidade.
― Não sei. Não me perguntem mais por que razões as pessoas
somem. Apenas sei dizer que somem. Há dois modos de pensar nisso: a descrição e
a explicação. E um único modo de não sofrer muito, aceitar que quase nunca
sabemos os porquês. Sabemos que somem, é só.
Quando meu primo era miúdo, ele tinha um colega no segundo
ano da escola, o Beto, de quem não ele deveria gostar, mas gostava muito. Meu
primo era estudioso, Beto também. Gostavam das mesmas coisas. Estudavam na
mesma sala. Tinham a mesma professora. Conduto, Beto era filho dum general e político
poderoso e, o mais importante, ele era o protegido da professora.
― Não deveria gostar? O que isso significa?
Explico. Em todas as avaliações, as notas de Beto eram mais
altas que as de meu primo, mesmo que fosse só um pouquinho. Nada que meu primo
fizesse agradava tanto a professora quanto os trabalhos de Beto. Meu primo
chegou a se queixar com meu tio. Piorou. Meu tio brigou com a professora, uma
mulher muito rancorosa.
Mesmo assim, aqueles dois meninos e um certo Emanuel, eram
grades amigos. E o foram por muito tempo, dos 7 anos aos 9, até que Beto sumiu.
Quando meu primo estava terminando Engenharia Aeronáutica, em
São José dos Campos, no Brasil, acho que terminando o mestrado, não tenho
certeza, ele encontrou novamente o Beto, por acaso. Reconheceu-o pelo dente incisivo
quebrado. Ele se lembrou do dia que o dente quebrou.
Nesse tempo, Beto era gerente de um órgão público em Recife.
Foi um encontro estranho. Eles não se viam desde que tinham 10 anos de idade.
Eram, então, homens feitos que foram amigos na infância, mas agora, o que eram?
Nesse encontro casual, eles conversaram um pouco. Cada um
deles achava que o outro não o havia reconhecido. Logo depois, meu primo foi
trabalhar num fábrica de helicópteros, na França.
Um dia, recebi uma ligação de meu primo. Ele estava morando
no Rio de Janeiro e fazendo 70 anos. Feliz, meu primo queria reunir a família.
As festas de meu primo eram ótimas, dizia-se. Ele era músico
e conhecia toda gente da música do Rio de Janeiro. Mas não pude ir à festa. Desde,
então, não vi mais meu primo. Hoje, eu vivo em Portugal.
Uma mulher chegou ao banco com uma pilha de cheques para
depositar às 16:01. O banco já estava fechado. Ela pediu ao segurança do banco
que abrisse a porta, ele se negou.
― Eu não posso senhora. Eu recebo ordens. O banco fecha às
16:00.
― Chame o gerente!
O gerente veio e pacientemente explicou a correntista que
não poderia fazer nada, pois o sistema já fecha automaticamente às 16:00 horas.
Disse o que ela poderia fazer para não ter muitas perdas, mas voltasse no dia
seguinte.
― Eu quero falar com a diretora. Chame a diretora. Agora!
A diretora veio. Ela era uma mulher enorme e bruta como
poucos. Os funcionários sabiam disso. A correntista contrariada desfilou todas as
reclamações e xingamentos, ali mesmo na frente do banco.
No meio da conversa,
tomou uma tapa da diretora do banco e, zonza, ouviu uma ordem:
― Volte amanhã!
A diretora voltou para o balcão e as contas voaram por todo lado. O vento levou alguns
cheques. Então, o gerente se aproximou e gentilmente disse:
― Senhora, eu lhe disse o que fazer. Por que a senhora não
me ouviu?
― Eu ouvi sua falação, gerente, mas a diretora me explicou
tudinho.
A história de Jó (ou Job) descreve o sofrimento de um homem
que perdeu quase tudo, menos os amigos. Estranho!
Por que Jó não perdeu os amigos?
Por que perder os amigos é morrer. Não há vida sem amigos e
aí está uma coisa para pensar.
A escola pode contribuir para que as pessoas
sejam amigas, acho que sim. E deve fazê-lo, pois as taxas de sofrimento intenso
são sinalizadas pelo suicídio
em Portugal. Vive-se uma época de sofrimento crescente.
Conta-se que os primeiros dias de aula do poeta Charles Baudelaire
foram sofridos. No primeiro dia o pai de Baudelaire ficou ao pé da porta da
escola esperando que o filho se acomodasse em sala, mas isso não era simples
para Baudelaire.
Um pouco depois de começar a aula, o pequeno e brilhante Charles,
com 7 anos, volta chorando para o pai, abraça-o e diz:
― “Papa, je ne suis pas comme les autres”.
Ele não era como os outros, claro. Ele era Baudelaire.
A escola deveria ser um lugar bem chato para Baudelaire que
viveu da palavra. Imagine-se um lugar onde as crianças não podiam conversar na
hora do almoço. Que chato! Criança não é cabrito que come calado e vai embora.
Criança fala.
Por essa dor, o poeta Carlos Drummond de Andrade
não passou. Na escola dele as crianças
conversavam na hora do almoço. A escola permitia. Falando se faz amigos. Ter
amigo é ter vida! Jó, o paradigma do sofrimento, perdeu quase tudo, mas manteve
os amigos.
____________
Carlos Drummond de Andrade teve um final de vida muito sofrido. Ele enterrou a própria filha que morreu precocemente. Esse sofrimento o marcou profundamente. Ele era pai.
Há pessoas boicotam a elas mesmas? Há pessoas que deixam
todas as oportunidades passar por toda a vida? Parece que sim.
Diz-se que nas enchentes causadas pelo furação Katrina em Luisiana
em 2005, um homem ficou no teto de uma casa alagada. Passou um barco e dele
alguém gritou:
― Vamos Ted, a chuva vai piorar.
― Podem ir, D-us cuida de mim!
Depois de alguns minutos, uma lancha apareceu e de lá alguém
chamou:
― Vamos senhor, a chuva vai piorar. Não perca essa
oportunidade (Do not miss this opportunity!)
― Podem ir, D-us cuida de mim, respondeu novamente.
Passado alguns minutos, a tempestade havia arrefecido um
pouco, um helicóptero se aproximou e jogou uma rede de salvamento. Ted fez
sinal de negativo e berrou:
― Podem ir, D-us cuida de mim!
A chuva piorou e Ted morreu levado pela pior tempestade
tropical dos últimos 30 anos.
Quando Ted chegou ao céu ele era um homem contrariado. Foi
direto ao trono do Eterno e meio desesperado argumentou:
― Senhor, eu esperei por Ti e não me socorreste.
― T e d, e u s o c o r r i. Mandei um barco pequeno e você não quis ser
resgatado. Mandei uma lancha e você não quis. Correndo muito risco, enviei um helicóptero
e você não aceitou o socorro. Você perdeu todas as oportunidades que te dei Ted
e queres me culpar. Ted, você se boicotou.
Luzinom estava devendo muito. Naquele tempo, a riqueza
estava concentrada na mão dos nobres. Pois um dia o Duque, dono de todo o
condado, resolveu ajudá-lo.
― Luzinom, eu vou lhe ajudar. Toda terra que você percorrer
até o por do Sol de hoje será sua.
Luzinom começou a correr. Correu. Correu. Depois de meia
hora, ele já estava rico, mas continuou a correr. Então, passou por um grupo de
camponeses que estavam limpando um prado.
― Luzinom, vem nos ajudar. Somos 9 homens, precisamos de
mais um só.
― Não posso. Estou com pressa! Gritou.
Mais adiante, um grupo estava almoçando.
― Luzinom, vem almoçar conosco. Nós fizemos um cordeiro!
― Não posso, estou com pressa! E correu.
Adiante passou por um grupo que se preparava para tirar uma
vaca de uma poça de lama. A vaca estava morrendo e faria muita falta a um
camponês pobre.
― Luzinom, vem ajudar. Precisamos tirar essa vaca do atoleiro!
― Não posso! Estou com pressa!
Quando o Sol se punha sobre a copa das árvores do pomar, ele
chegou exausto ao castelo. De tão estafado, caiu aos pés do Duque e ali mesmo
morreu. O Duque mandou encomendar a alma de Luzinom e o enterrou num lote de 1
metro por 3 metros. Sobre a cova funda pos uma lápide que dizia:
Há três fatores que justificam a migração.
Fator é um conjunto de justificativas (variáveis) que estão fortemente
relacionadas entre elas. Variáveis, nesse caso, são as razões para migrar. A
atração é o primeiro fator ou conjunto de razões para migrar.
Na década de 1970, muitos brasileiros que
viviam no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, venderam suas casas e
propriedades rurais e se mudaram para Mato Grosso e Rondônia.
— Qual eram as atrações?
Objetivamente eram terras boas e baratas;
incentivos governamentais; qualidade do ambiente; taxas de retorno do
agronegócio; taxa de juros.
— E os fatores de expulsão?
Na década de 1880, Japão tinha uma
superpopulação sem emprego, sem terra, endividada, sem esperança e vivendo em
más condições ambientais. A vida no Japão era muito dura.
O governo japonês fez
acordo com outros países com objetivo de lhes enviar migrantes. O Brasil fez
parte desses acordos, assim como a Coreia e os Estados Unidos e recebeu muitos
japoneses.
— O terceiro fator é afetivo.
A migração é justificada por sentimentos.
Por exemplo, admira-se a cultura de outro país. Muitos dos migrantes que saíram
do Brasil para Israel tinham motivações afetivas. Muitos não são religiosos,
mas fizeram “aliá”. Esse Esse terceiro fator parece que se chama esperança.
— O direito de migrar.
Eu disse que havia três fatores que
justificavam a migração, mas hoje há um quarto fator, sobre o qual se teorizou
pouco: o direito de migrar. Esse “D'Artagnan” ou quarto mosqueteiro é o Direito
de Migrar. Não importam as razões, nós temos o direito de migrar, de procurar
uma vida melhor. Aliás, temos obrigação de ser felizes.
A vida não porto seguro, mas os que lutam podem vencer a
guerra.
Na universidade, a sala de aula é para quem
precisa estudar. O laboratório é o sítio de quem gostam de estudar.
Aprendi
isso com meus melhores alunos. Nini era uma dessas personagens. Ela tinha grande talento para servir e liderar.
Uma vez levei o Reitor da minha
universidade ao meu laboratório. Como o laboratório fica noutro campus
universitário a 203 quilômetros da reitoria, nos atrasamos.
— Magnífico, se chegarmos muito atrasados à
reunião do laboratório, os alunos tomarão as decisões que cabe a eles e vão
para casa, pois eles não costumam atrasar, disse eu ao Reitor.
O reitor sorriu com o canto da boca,
incrédulo.
Quando cheguei ao laboratório havia um
bilhete para mim: professor, infelizmente o senhor está atrasado. Nós fizemos a
reunião, estudamos o texto. Volto mais tarde.
Entreguei o bilhete ao Reitor e devolvi o sorriso com certo orgulho.
À noite, antes da reunião administrativa
com a reitoria, Nini voltou ao laboratório chorando muito. Esperei que ela se
acalmasse. Por fim perguntei:
— O que houve amiga?
— Uma aluna daqui com quem nunca eu falei
está envolvendo meu nome numa discórdia. Ela fala mal de mim para toda gente.
Eu nem sabia o nome dela, professor.
Eu não resisti e fiz uma observação talvez
dura demais. Disse-lhe:
Meu amigo Telmo é uma das mentes mais
brilhantes que conheci, seja como músico ou como psicólogo. Eu sempre lhe fiz
pedidos absurdos: Telmo, você pode tocar Espinha de Bacalhau no saxofone?
Ou perguntas de respostas impossíveis: por que o aluno de quem mais cuidei para
que ele fizesse sucesso me odeia? Ele olhou para mim e riu. Eu senti o quanto
tenho que aprender.
Na década de 1980 eu era professor num
departamento de licenciatura onde estudavam os alunos mais pobres da
universidade. Dentre eles, um se destacava pelo brilho.
Meu Brilhante Aluno era feliz e triste.
Imagino que a força e disciplina faziam dele um homem feliz, mas as
dificuldades da vida na época de estudante de licenciatura impunham suas dores.
Um dos sinais de dificuldade eram as
sandálias que ele usava em sala de aula, de tão gasta não tinha mais o
calcanhar.
No meu aniversário daquele ano meu pai me
deu um belo chinelo que estava na moda e era bem caro. Experimentei-o. Gostei,
mas não seria meu.
Após a aula da manhã do dia seguinte, eu
encontrei meu brilhante aluno. Ele continuava a usar a sandália comida no
calcanhar, algo difícil de imaginar.
Chamei-o de lado e disse-lhe:
— Amigo, vamos ali comigo?
Quando cheguei ao carro, abri o maleiro e
dei-lhe a caixa com os chinelos. Disse que eu comprei, mas meu pai me deu
outra.
— Não preciso de dois chinelos. Se você os quiser, são seus.
Ele calçou feliz. Era perfeito. Ele tinha a
minha altura. Hoje meu ex-aluno é um Professor Doutor Brilhante, mas ele não fala comigo há anos. Por que, amigo?
— Talvez ele tenha vergonha. Talvez ele se
defenda odiando. Telmo disse-me aquilo rindo. Ainda hoje não sei se ele estava de fato me respondendo ou rindo de minha ignorância. O meu consolo foi ouvir Telmo Valença tocar Espinha de Bacalhau no saxofone. Que maravilha!