[Ao meu mestre Celiomar Lima, homem justo e bom.]
Numa cidade do interior gelado da Argentina havia
dois padres: um deles era um homem piedoso, cumpridor dos deveres religiosos e
civis, justo, reservado; o outro era impiedoso, tinha uma namorada, bebia muito, frequentava lugares impróprios.
Ambos já idosos, eis que morreu o padre
impiedoso. Morreu devagarinho depois de passar um tempo na casa de uma sobrinha
que vivia na capital. No dia do enterro, a cidade parou. A prefeitura decretou
feriado. As escolas fecharam. Os sinos dobraram.
Muita gente foi ao enterro. O cemitério esteve
lotado. Foi um dia de estórias e tristezas. Mas também foi uma festa. Toda gente da região veio assistir ao ofício religioso e acompanhar o esquife até a
cova. Gente chorou. Gente orou.
Algum tempo depois, morreu o padre piedoso
e justo. Fizeram-lhe uma missa apressada. Enterraram-no na companhia de 6 a 8
pessoas, incluindo o coveiro, claro. Não foi feriado. Não houve cortejo. Não se soube que alguém chorou. Pareceu que uma folha caiu duma árvore.
Hoje, já passado tanto tempo, eu pergunto:
— Por que o mal parece tão encantador?
— Por que não gostamos de fato do bem?
Embora o digamos...
— Quem sabe o nome do chanceler alemão que sucedeu a Hitler?






