segunda-feira, 31 de julho de 2017

O Sacerdote

[Ao meu mestre Celiomar Lima, homem justo e bom.]



Numa cidade do interior gelado da Argentina havia dois padres: um deles era um homem piedoso, cumpridor dos deveres religiosos e civis, justo, reservado; o outro era impiedoso, tinha uma namorada, bebia muito, frequentava lugares impróprios.

Ambos já idosos, eis que morreu o padre impiedoso. Morreu devagarinho depois de passar um tempo na casa de uma sobrinha que vivia na capital. No dia do enterro, a cidade parou. A prefeitura decretou feriado. As escolas fecharam. Os sinos dobraram.

Muita gente foi ao enterro. O cemitério esteve lotado. Foi um dia de estórias e tristezas. Mas também foi uma festa. Toda gente da região veio assistir ao ofício religioso e acompanhar o esquife até a cova. Gente chorou. Gente orou.

Algum tempo depois, morreu o padre piedoso e justo. Fizeram-lhe uma missa apressada. Enterraram-no na companhia de 6 a 8 pessoas, incluindo o coveiro, claro. Não foi feriado. Não houve cortejo. Não se soube que alguém chorou. Pareceu que uma folha caiu duma árvore.

Hoje, já passado tanto tempo, eu pergunto:

— Por que o mal parece tão encantador?


— Por que não gostamos de fato do bem? Embora o digamos...

— Quem sabe o nome do chanceler alemão que sucedeu a Hitler?


domingo, 30 de julho de 2017

O Mestre


O professor Joseph Campbell contou, em 1987, a seguinte história.

Numa certa tribo americana havia uma jovem índia muito bonita que desdenhava de todos os guerreiros que a cortejavam. Nenhum deles era bom o suficiente para ela. A todos evitava.

Um dia, ela sai para recolher lenha seca com a mãe dela numa mata próxima. De repente, começou uma tempestade. As duas, então, abrigaram-se numa caverna e ascenderam uma fogueira, pois o lugar era escuro e frio.

Quando a chuva passou, um guerreiro alto e forte apareceu na entrada da caverna. A jovem índia ficou encantada com ele. Não demorou até que o guerreiro pediu a bela índia em casamento.
Casaram-se e foram morar no novo território.

Na nova tenda, passaram juntas três noites seguidas. Quando a comida acabou, o guerreiro disse à mulher que ia caçar.

No final da tarde, uma cobra imensa entrou na tenda e foi até a índia. Passado o susto, ela começou a acariciá-la. Depois, a cobra foi embora.

Pouco tempo depois, chegou o marido com as caças. Durante o jantar, ele perguntou:

― Mulher, você teve medo quando eu voltei em forma de cobra.

― Não, meu marido.

― Ótimo.

Tempos depois, o guerreiro havia saído para caçar quando entra a cobra na tenda. Ela começa a acariciá-la. Entra outra cobra. Mais outra. E outra. Eram muitas! Com medo de tantas cobras, ela fugiu da aldeia em louca correria.

Já exausta, ela chega à margem dum rio onde o Mestre dela estava sentado. Ele perguntou:

― Onde você pensa que vai? Você não pode fugir ainda. Casastes com sete irmãos. Volte para sua tenda. Pegue uma bolsa que está sob sua cama. Nela você encontrará os sete corações do seu marido e dos irmãos dele. Pegue a bolsa e volte.

A índia fez o que o Mestre dela mandou.

Ao voltar, o rio estava mais cheio e revolto. Ela não conseguia atravessá-lo a nado. Quase se afogando, ela viu o Mestre sobre uma pedra que aflorava seca. Desesperada ela pediu socorro.

Ele estendeu o cajado e a recolheu, pois para a sorte dela, havia um mestre a quem se socorrer.

domingo, 23 de julho de 2017

The student backpack


Meu primo viu várias vezes um adolescente coreano passar pela Rua dos Cata-Ventos aos finais de tarde, sempre carregando uma mochila de estudante.

Naquele dia, meu primo voltava para casa quando viu um ladrão, com uma faca enferrujada tentando esfaquear o estudante coreano ao mesmo tempo em que tentava lhe arrancar a mochila. Mas o garoto lutava com toda energia que possuía!

Sem pensar direito, meu primo jogou o carro na calçada e foi em socorro do estudante. Hoje ele justifica seu gesto tresloucado dizendo que os filhos de 2 e 7 anos que estavam com ele no carro não mereciam ver um assassinato a facada.

De repente dois outros carros pararam e um homem mais jovem bateu com força no ladrão. O ladrão largou a faca, pegou uma bicicleta e fugiu. Outros homens saíram à procura do ladrão. O estudante coreano aproveitou a confusão e fugiu assustado na direção oposta. Meu primo foi para casa, todos corriam.

Foi horrível. Havia muita violência naquele bairro de classe média alta, geralmente envolvendo viciados em drogas e traficantes.

Uma semana depois, o cunhado do meu primo ligou convidando-o para jantar. Ele não queria sair à noite. Tinha medo. O cunhado insistiu:

― O restaurante fica a duas quadras do teu apartamento. Não me faça essa desfeita.

Não houve como recusar o convite.

Depois do jantar, por volta de meia noite, meu primo se despediu do casal. O cunhado dele o interpelou:

― Espera um pouco. Nós vamos te levar até tua casa.

― Não carece. Eu moro daqui a duas quadras.

― Faço questão, disse o cunhado.

Saíram os três em direção ao carro estacionado: meu primo, o cunhado e a concunhada. Quando chegaram ao carro, um homem falante e sorridente foi logo dizendo:

― Boa noite, doutor. O senhor pode me dar um dinheirinho p’ra janta? Tô com fome.


Era o mesmo sujeito que tentou matar o estudante coreano dias antes.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

O Servo: Eu sou João


Havia um homem de pouca reza, mas que costumava entrar na igreja e apenas dizer: “Eis-me aqui SENHOR”.

Um dia ele sofreu um gravíssimo acidente. Tão grave que dele nada lembra. Lembra somente de acordar no centro de terapia intensiva dum hospital.

Olhou para o lado e viu uma técnica de enfermagem. Perguntou:

― Há quanto tempo estou aqui?

― Três semanas.

― O que aconteceu?

― O senhor sofreu um grave acidente.

― Corro risco de morrer?

― Até três dias atrás, sim. O senhor até recebeu extrema unção há uma semana.

― E o que mais?

―  Há quatro dias, um homem desconhecido veio lhe visitar. Parou ao lado de sua cama e disse: “Eis-me aqui, João” e foi embora. Depois dessa visita, o senhor melhorou. Não está mais com septicemia. Não tem febre. Os ferimentos estão cicatrizando. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

O Justo (*)


Um pobre viúvo chamado Monsieur Waltzing morava sozinho nas proximidades da Rue Garibaldi, em Le Havre. 

Era uma dessas pessoas que mal se via. Frequentava a igreja regularmente as terças-feiras e sábados. Fazia compras nas redondezas uma vez ou duas por mês. A maior parte do tempo ele lia, estudava a Bíblia e rezava.

Dizem que foi funcionário dos Correios e que lutou na Segunda Guerra ao lado dos partisans iugoslavos sob o comando Josip Broz Tito.

Também se diz que ele era muito piedoso e costumava pedir, em suas preces, por qualquer um que lhe encomendasse uma bênção.

Figura suave, M. Waltzing usava costumeiramente ternos pretos, camisas brancas, sempre limpas. Não se espera que um velhinho solitário e pobre andasse bem limpinho.

Daquele homem bom e justo, havia quem gratuitamente não gostasse. E até havia quem gostasse de M. Waltzing.

Um vizinho, que o detestava, soube que ele passava necessidade, quase nada tinha para comer.

Por preconceito ou ódio gratuito, tomou a decisão de comprar uma boa feira e dá-la a M. Waltzing. E quando lhe entregasse as compras diria que foi um anjo mau quem as mandou, só para ferir os sentimentos religiosos do bom velhinho.

Assim fez. Bateu a porta de M. Waltzing, disse que trazia uma encomenda. Era uma feira. Começou a descarregá-la. Quando terminou, olhou para aqueles olhinhos acinzentados pelo tempo de M. Waltzing e disse:

― O senhor não vai perguntar o nome de quem  lhe comprou esta feira?

― Não carece meu rapaz. Quando D-us manda, até os anjos caídos obedecem.

(*) Para Luana e David.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Os Sapatos

Depois de uma semana fria, aquela era a primeira tarde quente. O Sol alaranjado da tarde encheu as ruas e parques.

Alguns pais e mães resolveram descer até o parque junto a Ria D’Aveiro com seus miúdos. Encontram-no com música ao vivo e ruídos de gente a andar, correr, conversar, brincar.

Nós também descemos até às gaivotas. Algumas não migram e estavam lá. Sempre havia quem lhes levasse comida. As crianças têm medo delas. Paradoxalmente, as adiram.

O parque junto a ria estava melhor. Um trecho da margem recebeu um novo gramado e esculturas que homenageiam a gastronomia local.

Uma miúda começou a correr e a pular ao som da banda que tocava na margem direita. A mãe a vigiava de muito perto. De repente, no entusiasmo, ela resolveu tirar os sapatinhos.

― Não pode! proibiu rigorosamente.

― Por que não posso, mamãe?

Ouvi aquela pergunta e a repeti no coração: por que ela não pode, mãe? Por que privá-la do prazer de pisar na grama e nas poças d’águas. É bom. Deixe-a pisar na grama, pensei.

Não fiz nada. Aprendi que ninguém é mais aberto à conversa que os pais e mães de cachorro. Até formam rodas de conversa enquanto os animais fertilizam a grama. E mais fechados, arredios que mães e pais de crianças humanas.

Por que não, mãe? Por que privá-la do prazer? Por quê?

domingo, 16 de julho de 2017

O Canivete


A viagem estava próxima. Havia chegado a hora de aparta-se de coisas de que ele gostava muito: os livros, a coleção de moedas, selos, algumas ferramentas e os canivetes. Eram apenas quatro, mas muito estimados.

Houve coisas que ficaram. Outras foram vendidas e outras vieram com a mudança. Os canivetes, esses não podem mais viajar de avião desde os eventos em Nova Iorque de 11 de Setembro de 2001.

Chato, não é?. Que mal pode fazer um canivete numa mala no depósito de bagagem de um avião? Afinal era só um objeto de estimação.

Regras devem ser obedecidas. Ele deu os quatro canivetes: um para o procurador que ficou lá no Brasil; outro para um primo e os outros dois para os filhos. Três entregues em mão. O quarto foi encomendado para um dos filhos.

Passou o tempo, as chuvas da primavera. Chegou o verão acanhado do Paralelo 40 europeu, os festivais de música, as praias lotadas no Mediterrâneo. Ele não teve mais notícias do quarto canivete.

Será que o quarto canivete foi entregue?
Talvez não.  Se o tivesse recebido teria agradecido.

A gratidão é a forma do amor filial ao pai e ao amor ETERNO. Não se diz eu te amo D-us de Abraão, Isaac e Jacob. Diz-se “obrigado” SENHOR por minha vida...

Os filhos nascidos a partir de 1980 têm uma característica única: não sabem dizer obrigado por aquilo que os pais fazem, por maior que tenha sido o sacrifício desses pais.

Ele não se importava mais de ficar sem o canivete. Mas a gratidão faz muita falta. E vai continuar fazendo. Não se iluda!

sábado, 8 de julho de 2017

O Frigobar


A casa era pequena, um pouco acanhada, mas ele estava feliz. Era dele, com o tempo melhoraria.

Quase não tinha móveis. Aos poucos ganhou alguns: um sofá de dois lugares, uma mesa de cozinha, 4 cadeiras. Tudo usado, tudo de boa qualidade.

A cama de casal ainda estava improvisada. Era um sofá-cama um pouco desconfortável. Foi o que deu para comprar. Os lençóis bem novinhos e cheirosos. Travesseiros novos. Um ventilador. Estava bem.

Não havia uma geladeira. Na casa da ex-mulher havia uma geladeira nova e dois frigobares. Bem que ela poderia dar um frigobar. Tinha dois!

Ligou. Brigou e conseguiu que ela cedesse de má vontade uma geladeira de quarto que era usada apenas para guardar meias de seda.

Dois ou três dias depois, o frigobar chegou. Vinha de muito perto, do bairro vizinho. Demorou, não sei por quê.

Recebeu o frigobar muito contente. Limpou. Lustrou e ligou. Foi nesse momento que ele descobriu: a Medéia havia quebrado a porta do frigobar antes de enviá-lo. Pura maldade.


Ele foi ao quintal onde havia uma lata. Encheu-a de areia e usou-a como peso para prender a porta. Se o compressor estivesse funcionando, seria ótimo. Haveria onde conservar os alimentos.

Jesus nos quer desarmados ou armados?

Muitos religiosos, fazendo um discurso politicamente correto, dirão que Ele nos quer desarmados. Mas não é verdade. Jesus nos quer arma...