Tia Jovem só consumia comida fresca. Nunca tomou café de
garrafa térmica. Não acordava muito cedo ou muito tarde. Comia de tudo, desde
que coubesse naquele prato de sobremesa que ela ganhou do tio Ranulfo.
Muitas vezes cheguei sem avisar, mas ela só me recebia bem vestida
e cheirando a alfazema; de sapato alto, vestido ou saia e as belas pernas
ligeiramente à vista.
Os cabelos ficaram brancos. "Tintura, coisa de gente
malnascida", dizia.
Remédios, só os inevitáveis. Água de boa fonte e uma tal de aguardente
alemã discretamente guardada.
Vinho, uma vez ou outra. Cigarro, só em casa. Eu nunca a vi
fumando. Mas esses olhos que ei de doar jamais esquecerão aquela beleza gorda,
fresca e cheirosa. Linda, absolutamente linda!
Só perdia a compostura quando se falava do tio Ranulfo, um
homem tão vivo que, quando ela morreu viúva aos 96 anos, ainda tinha presentes
dele.
Ela guardava também todos os bilhetes, fora da nossa
curiosidade. Talvez fossem picantes demais.
Pensando nessa mulher tão amada, chego a sentir inveja.
Havia algo de misterioso naquela boca discreta ao falar, mas de uma beleza
obscena. Ela era discreta demais.
As mulheres modernas falam muito e têm ideais estéticos bem
definidos: 90 de quadris; 60 de cintura e
90 de busto; duas horas de ginástica; 15 dias por ano num
spa; cartão de crédito sem limite. Elas só recebem presentes antes. Depois, nunca.
Então, como uma viúva gordinha aos 70, 80 e 90 anos podia ser tão sensual e feliz antes do
Prozac? Talvez hoje seja um bom dia para rever o conceito de felicidade
feminina.
Chega de cuidar do corpo para impressionar outra mulher. É impossível ser feliz. O corpo
é fonte de frustrações. Os desejos não conhecem limites. A juventude é curta e
a velhice é longa.
E se amor não existir, não há saída.

