terça-feira, 26 de setembro de 2017

As pessoas somem, é um fato.

― Por que as pessoas somem?

― Não sei. Não me perguntem mais por que razões as pessoas somem. Apenas sei dizer que somem. Há dois modos de pensar nisso: a descrição e a explicação. E um único modo de não sofrer muito, aceitar que quase nunca sabemos os porquês. Sabemos que somem, é só.

Quando meu primo era miúdo, ele tinha um colega no segundo ano da escola, o Beto, de quem não ele deveria gostar, mas gostava muito. Meu primo era estudioso, Beto também. Gostavam das mesmas coisas. Estudavam na mesma sala. Tinham a mesma professora. Conduto, Beto era filho dum general e político poderoso e, o mais importante, ele era o protegido da professora.

― Não deveria gostar? O que isso significa?

Explico. Em todas as avaliações, as notas de Beto eram mais altas que as de meu primo, mesmo que fosse só um pouquinho. Nada que meu primo fizesse agradava tanto a professora quanto os trabalhos de Beto. Meu primo chegou a se queixar com meu tio. Piorou. Meu tio brigou com a professora, uma mulher muito rancorosa.

Mesmo assim, aqueles dois meninos e um certo Emanuel, eram grades amigos. E o foram por muito tempo, dos 7 anos aos 9, até que Beto sumiu.

Quando meu primo estava terminando Engenharia Aeronáutica, em São José dos Campos, no Brasil, acho que terminando o mestrado, não tenho certeza, ele encontrou novamente o Beto, por acaso. Reconheceu-o pelo dente incisivo quebrado. Ele se lembrou do dia que o dente quebrou.

Nesse tempo, Beto era gerente de um órgão público em Recife. Foi um encontro estranho. Eles não se viam desde que tinham 10 anos de idade. Eram, então, homens feitos que foram amigos na infância, mas agora, o que eram?

Nesse encontro casual, eles conversaram um pouco. Cada um deles achava que o outro não o havia reconhecido. Logo depois, meu primo foi trabalhar num fábrica de helicópteros, na França.
Um dia, recebi uma ligação de meu primo. Ele estava morando no Rio de Janeiro e fazendo 70 anos. Feliz, meu primo queria reunir a família.


As festas de meu primo eram ótimas, dizia-se. Ele era músico e conhecia toda gente da música do Rio de Janeiro. Mas não pude ir à festa. Desde, então, não vi mais meu primo. Hoje, eu vivo em Portugal.

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