Filho, eu tenho muito medo de odiar. O ódio é uma criatura
estranha com enorme capacidade de invadir o corpo humano.
O ódio tem garras longas capazes de se agarrarem à alma e ao
coração. Como um vírus alienígena, ele se reproduz a partir de qualquer
fragmento que circular pelo sangue do seu hospedeiro.
O ódio é um velho ranzinza, doente, chato, baixinho, feio, mal-humorado e
alimenta-se da vida alheia.
Diziam os nossos sábios que o ódio é uma mancha
definitiva na alma. De tão pesado, ele vai para a cova do insurreto que o
abriga.
― Mas o que há de bom em ser odiado, papai?
― Quase nada, filho. Apenas um fragmento da bondade ficou nele:
ele é para sempre, nunca acaba. Quisera eu que o amor fosse assim...
― O que há de bom nisso, papai?
― Quem odeia, filho, nunca esquece o ser odiado, pois o
ódio é uma paixão (latim passio, passoinis, .ação de suportar,
.ação de sofrer), uma doença. A gratidão, ao contrario, faz bem a saúde de quem
diz “agradeço”. Agradecer é uma bênção. Por tudo se deve agradecer, mesmo pelo
não-sei-o-quê.
― Por tudo, papai?
― Por tudo, filho, pois faz bem. Agradecer desobstrui, poupa dinheiro, desemprega um analista, um médio e
duas assistentes sociais.
― Duas assistentes sociais?

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