Meu amigo Telmo é uma das mentes mais
brilhantes que conheci, seja como músico ou como psicólogo. Eu sempre lhe fiz
pedidos absurdos: Telmo, você pode tocar Espinha de Bacalhau no saxofone?
Ou perguntas de respostas impossíveis: por que o aluno de quem mais cuidei para
que ele fizesse sucesso me odeia? Ele olhou para mim e riu. Eu senti o quanto
tenho que aprender.
Na década de 1980 eu era professor num
departamento de licenciatura onde estudavam os alunos mais pobres da
universidade. Dentre eles, um se destacava pelo brilho.
Meu Brilhante Aluno era feliz e triste.
Imagino que a força e disciplina faziam dele um homem feliz, mas as
dificuldades da vida na época de estudante de licenciatura impunham suas dores.
Um dos sinais de dificuldade eram as
sandálias que ele usava em sala de aula, de tão gasta não tinha mais o
calcanhar.
No meu aniversário daquele ano meu pai me
deu um belo chinelo que estava na moda e era bem caro. Experimentei-o. Gostei,
mas não seria meu.
Após a aula da manhã do dia seguinte, eu
encontrei meu brilhante aluno. Ele continuava a usar a sandália comida no
calcanhar, algo difícil de imaginar.
Chamei-o de lado e disse-lhe:
— Amigo, vamos ali comigo?
Quando cheguei ao carro, abri o maleiro e
dei-lhe a caixa com os chinelos. Disse que eu comprei, mas meu pai me deu
outra.
— Não preciso de dois chinelos. Se você os quiser, são seus.
Ele calçou feliz. Era perfeito. Ele tinha a
minha altura. Hoje meu ex-aluno é um Professor Doutor Brilhante, mas ele não fala comigo há anos. Por que, amigo?
— Talvez ele tenha vergonha. Talvez ele se
defenda odiando.
Telmo disse-me aquilo rindo. Ainda hoje não sei se ele estava de fato me respondendo ou rindo de minha ignorância.
O meu consolo foi ouvir Telmo Valença tocar Espinha de Bacalhau no saxofone. Que maravilha!
Telmo disse-me aquilo rindo. Ainda hoje não sei se ele estava de fato me respondendo ou rindo de minha ignorância.
O meu consolo foi ouvir Telmo Valença tocar Espinha de Bacalhau no saxofone. Que maravilha!

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