(Essa
é uma ficção. Qualquer semelhança com ocorrências reais é verossimilhança.)
Ariovaldo
teve três filhos. Todos bem criados, bem sucedidos e poderosos. Nenhum deles
tinha salário inferior a 20 salários mínimos. Algo por volta de 100 mil dólares
americanos por ano. E todos os três eram autoridades constituídas por lei.
Na
época que Ariovaldo entrou para a turma, ele era aposentado, tinha 63 anos e
recebia por volta de 35 mil dólares por ano. Mesmo assim, ele pagava pensão
alimentícia para o filho mais novo. Salvo erro de memória, na época esse filho
era promotor de justiça.
Ariovaldo
era uma vítima de Alienação Parental. Iludido, ele acreditava que se não
brigasse com os filhos, teria o amor deles. Ledo engano. Os filhos odiavam
aquele pai. A Síndrome da Alienação Parental (SAP) é, em princípio, instalada
para a vida toda do filho.
A
vida é engraçada. Ariovaldo conheceu uma divorciada. Mulher madura, que casou
tarde e fez todos os tratamentos disponíveis para engravidar. Não engravidou e
se divorciou do primeiro marido. Ele gostou dela e não queria ter outros
filhos. Casaram-se.
A
mulher de Ariovaldo, presumida estéril, engravidou. Aos 65 anos, Ariovaldo era
pai novamente. Foi muito bom. Ele tinha muito tempo. E havia muito amor nele.
Cuidava desse filho com muito carinho. Levava-o à escola, ao futebol, à aula de
inglês. Ensinava as tarefas de casa.
Um
dia chegou ao colégio desse filho mais novo muito abatido. A segunda mulher
dele estava com câncer. Os amigos compadeceram-se e disseram o óbvio: hoje há
muitos procedimentos capazes de tratar um câncer.
O
tempo passou. A mulher dele fez a cirurgia. E não se falou mais nisso. Com os
amigos, o assunto era o América, time do coração dele. Time ao qual serviu e
pelo qual morria de amor.
Mais
ou menos dois anos depois da cirurgia de câncer bem sucedida, o bem-humorado
Ariovaldo chega à roda de amigos visivelmente triste. A sogra dele havia
morrido. Ele gostava dela. Era uma velha simpática, solícita e instruída. Mas a
tristeza, desta vez, não contaminou os amigos.
Ao
contrário, viram-se risinhos mal disfarçados naquela roda de conversar.
Estranho? Não. Para os amigos não. Havia uma coisa que Ariovaldo não sabia. Com
a iminência de morte da mulher dele, um plano cruel foi posto em andamento.
Que
plano sinistro era esse?
A
mulher dele, Silvânia, estava preparando e instruindo a mãe dela e sogra de
Ariovaldo para, no caso dela vir a falecer, ela pediria a guarda do filho mais
novo de Ariovaldo. Tudo estava arrumado. Ariovaldo não poderia ficar com a
guarda do quarto filho.
Que
sina. Uma vítima de Alienação Parental seria vítima novamente. E o pior. Ele
nem sabia do que estava acontecendo.
Pois
é. Mas a morte veio em socorro daquele pai tão sofrido. E levou a sogra dele,
personagem central na macabra trama de Alienação Parental. Ao contrário do
iludido Ariovaldo, os amigos sabiam desse plano de pedido de guarda, por isso
não esconderam a felicidade quando ele disse que a sobra havia morrido.
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