domingo, 8 de janeiro de 2017

Meu filho manda. É o Reizinho da casa.


Tinha tudo para aquele ser um voo muito tranquilo. Decolando de Vitória, no Espírito Santo, uma escala no Rio e o destino: São Paulo. Todos os passageiros estavam silenciosos e acomodados. Exceto pelas crianças, elas sempre pareciam mais barulhentas que o normal.

Já estava na hora certa de decolar. O comandante já começava a falar com todos, explicou as condições do tempo e o tempo aproximado de viagem. A equipe já estava começando a preparar a apresentação clássica sobre as máscaras de oxigênio e as poltronas flutuantes. O avião começava a se movimentar lentamente buscando um melhor posicionamento para decolagem. 

Uma aeromoça com batom muito lilás passava pelo corredor para checar se as janelas estavam abertas, as poltronas na posição vertical e os cintos afivelados. Foi quando chegou nas poltronas 6C e 6D e percebeu que uma criança não estava com o cinto afivelado. Ela gentilmente sorriu e pediu para que o fizesse. O menino estava um pouco entediado, como ficam todas as crianças, e a mãe um pouco impaciente, como todas as mães.

O menino disse que não faria o que a moça tão sorridente pedia.

Nesse momento a mãe do menino tirava os fones de ouvido e tentava entender o que acontecia. Ela era muito magra e arrumada de forma impecável. Disfarçava bem a idade, embora seus lábios revelassem o Botox recém aplicado. O menino explicava para a mãe com um tom manhoso que não queria usar o cinto. A moça explicava que era uma norma importante para a segurança de todos. 

Mas a mãe não queria contrariar o menino.

A aeromoça resolveu continuar seu trabalho e depois retornou àquela poltrona. 
A situação era a mesma: o menino reinava e a mãe pedia que deixassem ele sem cinto. 

- Qual o problema? Não vai acontecer nada mesmo... Deixa o menino ficar como ele quer.

O avião estava parado na posição de decolar e já começava a acelerar. 
A aeromoça voltou para sua poltrona onde já estavam os outros colegas, que já começavam a apagar as luzes da cabine. Ela resolveu avisar ao comandante este caso do passageiro menino que tinha sua vontade acima das normas. O comandante no fundo acreditava, mas não queria acreditar.


- Atenção senhores passageiros. Estamos preparados para decolar. Todas as condições são favoráveis, exceto por um menino que está a bordo conosco e não aceita usar o cinto de segurança. A sua mãe acredita que sua vontade deve ser respeitada. Por isso, não podemos decolar. Sinto muito. Não apenas por este voo que não será executado conforme o esperado, mas principalmente por perceber que jovens mimados e imaturos tem mais poder do que as próprias normas que nos regem.

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