Em princípio, não há cura para alienação parental.
Ou é muito complicado, pois implica aceitar que a própria mãe, avó ou tia
fofinha mentiu e te enganou com o propósito de te afastar do teu pai. Sua
reação é naturamente imaginar a alienadora como um amor de pessoa.
— Minha mãe, nunca me faria mal. Ela me ama. O amor da minha mãe é o único amor verdadeiro da minha vida.
— Minha avó é linda, uma santa. Ela não seria capaz de fazer mal a ninguém. Aqueles olhinhos lindos não veem maldade no mundo.
— Minha tia é uma serva do SENHOR. Ela faz parte do grupo de oração da minha igreja. Ela sempre me trata com muito carinho.
Mas há exceções. Há fofinhas terríveis. E há pessoas que mesmo tardiamente descobrem que existe um demônio morando naquela fofura que é sua alienadora. Eu conheci quem entendesse o que escrevo aqui.
Faz dois anos. Eu entrei no hospital para fazer uma cirurgia de emergência. A empresa, antes do “check-in”, obrigava os pacientes a passar pela triagem de enfermeiras experientes e treinadas para cuidar. Eu também passei pela triagem.
Depois das perguntas protocolares, a enfermeira olhou para os meus cabelos brancos e me fez uma pergunta fora de quadro. Não lembro qual foi ou qual foi minha resposta. Lembro-me do espanto dela.
Em seguida, perguntou se poderia falar de uma coisa pessoal comigo. Eu disse que sim. E ela me contou que tinha um filho pequeno e que nessa fase da vida, aos 36 anos, descobriu que era vítima de alienação parental.
Os relatos eram tristes e eu não posso nem quero reproduzi-los. De tudo que ela me disse, duma coisa lembro bem. Ela disse ao pai dela que lembrava que ele havia feito uma coisa que a deixara muito magoada. E descreveu a mágua.
O pai respondeu:
— Não é possível, filha, nessa época eu estava fora. Eu não tinha contato pessoal contigo.
Então, ela me perguntou:
— Como pode. Eu me lembro de detalhes daquele acontecimento impossível?
E respondi:
— Não é complicado. O aprendizado e a memória envolvem as mesmas áreas do cérebro humano. Formam-se de modo semelhante. Há várias coisas que pensamos que são lembranças, mas são aprendidas. A frase-chave é: “Filha, você se lembra do dia que...”
Fiz a cirurgia. O pós-anestésico foi horroroso. E aquela mulher olhava aliviada para o passado. Confusa, mas aliviada.
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