Depois de uma semana fria, aquela era a primeira tarde
quente. O Sol alaranjado da tarde encheu as ruas e parques.
Alguns pais e mães resolveram descer até o parque junto a
Ria D’Aveiro com seus miúdos. Encontram-no com música ao vivo e ruídos de gente
a andar, correr, conversar, brincar.
Nós também descemos até às gaivotas. Algumas não migram e estavam lá.
Sempre havia quem lhes levasse comida. As crianças têm medo delas.
Paradoxalmente, as adiram.
O parque junto a ria estava melhor. Um trecho da margem recebeu um
novo gramado e esculturas que homenageiam a gastronomia local.
Uma miúda começou a correr e a pular ao som da
banda que tocava na margem direita. A mãe a vigiava de muito perto. De repente, no
entusiasmo, ela resolveu tirar os sapatinhos.
― Não pode! proibiu rigorosamente.
― Por que não posso, mamãe?
― Por que não posso, mamãe?
Ouvi aquela pergunta e a repeti no coração: por que ela não
pode, mãe? Por que privá-la do prazer de pisar na grama e nas poças
d’águas. É bom. Deixe-a pisar na grama, pensei.
Não fiz nada. Aprendi que ninguém é mais aberto à conversa
que os pais e mães de cachorro. Até formam rodas de conversa enquanto os
animais fertilizam a grama. E mais fechados, arredios que mães e pais de
crianças humanas.
Por que não, mãe? Por que privá-la do prazer? Por quê?

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