segunda-feira, 17 de julho de 2017

Os Sapatos

Depois de uma semana fria, aquela era a primeira tarde quente. O Sol alaranjado da tarde encheu as ruas e parques.

Alguns pais e mães resolveram descer até o parque junto a Ria D’Aveiro com seus miúdos. Encontram-no com música ao vivo e ruídos de gente a andar, correr, conversar, brincar.

Nós também descemos até às gaivotas. Algumas não migram e estavam lá. Sempre havia quem lhes levasse comida. As crianças têm medo delas. Paradoxalmente, as adiram.

O parque junto a ria estava melhor. Um trecho da margem recebeu um novo gramado e esculturas que homenageiam a gastronomia local.

Uma miúda começou a correr e a pular ao som da banda que tocava na margem direita. A mãe a vigiava de muito perto. De repente, no entusiasmo, ela resolveu tirar os sapatinhos.

― Não pode! proibiu rigorosamente.

― Por que não posso, mamãe?

Ouvi aquela pergunta e a repeti no coração: por que ela não pode, mãe? Por que privá-la do prazer de pisar na grama e nas poças d’águas. É bom. Deixe-a pisar na grama, pensei.

Não fiz nada. Aprendi que ninguém é mais aberto à conversa que os pais e mães de cachorro. Até formam rodas de conversa enquanto os animais fertilizam a grama. E mais fechados, arredios que mães e pais de crianças humanas.

Por que não, mãe? Por que privá-la do prazer? Por quê?

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