Meu primo viu várias vezes um adolescente coreano passar pela Rua dos Cata-Ventos
aos finais de tarde, sempre carregando uma mochila de estudante.
Naquele dia, meu primo voltava para casa quando viu um
ladrão, com uma faca enferrujada tentando esfaquear o estudante coreano ao mesmo
tempo em que tentava lhe arrancar a mochila. Mas o garoto lutava com toda energia que possuía!
Sem pensar direito, meu primo jogou o carro na calçada e foi
em socorro do estudante. Hoje ele justifica seu gesto tresloucado dizendo que
os filhos de 2 e 7 anos que estavam com ele no carro não mereciam ver um
assassinato a facada.
De repente dois outros carros pararam e um homem mais jovem
bateu com força no ladrão. O ladrão largou a faca, pegou uma bicicleta
e fugiu. Outros homens saíram à procura do ladrão. O estudante coreano
aproveitou a confusão e fugiu assustado na direção oposta. Meu primo foi para casa, todos corriam.
Foi horrível. Havia muita violência naquele bairro de classe média
alta, geralmente envolvendo viciados em drogas e traficantes.
Uma semana depois, o cunhado do meu primo ligou convidando-o
para jantar. Ele não queria sair à noite. Tinha medo. O cunhado insistiu:
― O restaurante fica a duas quadras do teu apartamento. Não me faça essa desfeita.
Não houve como recusar o convite.
Depois do jantar, por volta de meia noite, meu primo se despediu
do casal. O cunhado dele o interpelou:
― Espera um pouco. Nós vamos te levar até tua casa.
― Não carece. Eu moro daqui a duas quadras.
― Faço questão, disse o cunhado.
Saíram os três em direção ao carro estacionado: meu primo, o
cunhado e a concunhada. Quando chegaram ao carro, um homem falante e sorridente foi logo dizendo:
― Boa noite, doutor. O senhor pode me dar um dinheirinho p’ra
janta? Tô com fome.
Era o mesmo sujeito que tentou matar o estudante coreano
dias antes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário