Um pobre viúvo chamado Monsieur Waltzing morava sozinho nas proximidades
da Rue Garibaldi, em Le Havre.
Era
uma dessas pessoas que mal se via. Frequentava a igreja regularmente as terças-feiras e
sábados. Fazia compras nas redondezas uma vez ou duas por mês. A maior parte do tempo ele lia, estudava a Bíblia e rezava.
Dizem que foi funcionário dos Correios e que lutou na
Segunda Guerra ao lado dos partisans iugoslavos
sob o comando Josip Broz Tito.
Também se diz que ele era muito piedoso e costumava pedir,
em suas preces, por qualquer um que lhe encomendasse uma bênção.
Figura suave, M. Waltzing usava costumeiramente ternos pretos, camisas brancas,
sempre limpas.
Não se espera que um velhinho solitário e pobre andasse bem limpinho.
Daquele homem bom e justo, havia quem
gratuitamente não gostasse. E até havia quem gostasse de M. Waltzing.
Um vizinho, que o detestava, soube que ele passava necessidade, quase nada tinha para comer.
Por preconceito ou ódio gratuito, tomou a decisão de comprar uma boa feira e
dá-la a M. Waltzing. E quando lhe entregasse as compras diria que foi um anjo
mau quem as mandou, só para ferir os sentimentos religiosos do bom velhinho.
Assim fez. Bateu a porta de M. Waltzing, disse que trazia
uma encomenda. Era uma feira. Começou a descarregá-la. Quando terminou, olhou
para aqueles olhinhos acinzentados pelo tempo de M. Waltzing e disse:
― O senhor não vai perguntar o nome de quem lhe comprou esta feira?
― Não carece meu rapaz. Quando D-us manda, até os anjos
caídos obedecem.
(*) Para Luana e David.

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