terça-feira, 18 de julho de 2017

O Justo (*)


Um pobre viúvo chamado Monsieur Waltzing morava sozinho nas proximidades da Rue Garibaldi, em Le Havre. 

Era uma dessas pessoas que mal se via. Frequentava a igreja regularmente as terças-feiras e sábados. Fazia compras nas redondezas uma vez ou duas por mês. A maior parte do tempo ele lia, estudava a Bíblia e rezava.

Dizem que foi funcionário dos Correios e que lutou na Segunda Guerra ao lado dos partisans iugoslavos sob o comando Josip Broz Tito.

Também se diz que ele era muito piedoso e costumava pedir, em suas preces, por qualquer um que lhe encomendasse uma bênção.

Figura suave, M. Waltzing usava costumeiramente ternos pretos, camisas brancas, sempre limpas. Não se espera que um velhinho solitário e pobre andasse bem limpinho.

Daquele homem bom e justo, havia quem gratuitamente não gostasse. E até havia quem gostasse de M. Waltzing.

Um vizinho, que o detestava, soube que ele passava necessidade, quase nada tinha para comer.

Por preconceito ou ódio gratuito, tomou a decisão de comprar uma boa feira e dá-la a M. Waltzing. E quando lhe entregasse as compras diria que foi um anjo mau quem as mandou, só para ferir os sentimentos religiosos do bom velhinho.

Assim fez. Bateu a porta de M. Waltzing, disse que trazia uma encomenda. Era uma feira. Começou a descarregá-la. Quando terminou, olhou para aqueles olhinhos acinzentados pelo tempo de M. Waltzing e disse:

― O senhor não vai perguntar o nome de quem  lhe comprou esta feira?

― Não carece meu rapaz. Quando D-us manda, até os anjos caídos obedecem.

(*) Para Luana e David.

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