Depois de tantas brigas, lutas, desentendimentos, enfim o
casamento de 17 anos estava acabado. Não era um sentimento agradável. Era um
misto de fracasso e alívio. Sim, ele era um homem aliviado da pesada carga de
conviver com uma pessoa instável.
Desorientado, cansado da batalha, foi para a casa do pai.
Era só o pai. Mãe já não tinha. Na chegada foi recebido bem, como sempre.
Depois de um café com leite e pão, sentou-se e contou o que
havia ocorrido, assim de pronto:
― Papai, não deu mais. Estou separado.
― Misericórdia! E para onde você vai, filho?
― Eu gostaria de ficar aqui na sua casa.
― Por quanto tempo?
Isso é uma desgraça. Depois de uma luta insana, estava vivo
e era essa a recepção? Cadê o pai amoroso de alguns minutos atrás? Cadê a
solidariedade com o filho? Cadê o Sol que talvez brilhasse?
― Será por pouco tempo, papai.
― Está bem. Fique no quarto de empregada.
O quarto de empregada há muito não era usado. Estava cheio
de lixo: livros, papéis velhos, latas de tinta. Depois era terrivelmente quente
e pequeno. Privacidade, não tinha. E o quarto ao lado da sala, que estava vazio, grande e
ventilado.
― Posso dormir no sofá hoje, papai?
― É fácil limpar aquele quarto, filho. É um dormitório
pequeno. Ainda é cedo.
― Fácil foi ontem. Hoje é outro
dia.

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