quarta-feira, 2 de maio de 2018

Fácil foi ontem. Hoje dói



Depois de tantas brigas, lutas, desentendimentos, enfim o casamento de 17 anos estava acabado. Não era um sentimento agradável. Era um misto de fracasso e alívio. Sim, ele era um homem aliviado da pesada carga de conviver com uma pessoa instável.

Desorientado, cansado da batalha, foi para a casa do pai. Era só o pai. Mãe já não tinha. Na chegada foi recebido bem, como sempre.

Depois de um café com leite e pão, sentou-se e contou o que havia ocorrido, assim de pronto:

Papai, não deu mais. Estou separado.

 Misericórdia! E para onde você vai, filho?

Eu gostaria de ficar aqui na sua casa.

Por quanto tempo?

Isso é uma desgraça. Depois de uma luta insana, estava vivo e era essa a recepção? Cadê o pai amoroso de alguns minutos atrás? Cadê a solidariedade com o filho? Cadê o Sol que talvez brilhasse?

Será por pouco tempo, papai.

Está bem. Fique no quarto de empregada.

O quarto de empregada há muito não era usado. Estava cheio de lixo: livros, papéis velhos, latas de tinta. Depois era terrivelmente quente e pequeno. Privacidade, não tinha. E o quarto ao lado da sala, que estava vazio, grande e ventilado.

Posso dormir no sofá hoje, papai?

 É fácil limpar aquele quarto, filho. É um dormitório pequeno. Ainda é cedo.

 Fácil foi ontem. Hoje é outro dia.

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